quarta-feira, 24 de junho de 2026

Clara linda linda Clara

 https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94

Em 1962, Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o tema na voz de Mariana Vitorino.

Quase duas décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu álbum Romances. Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu repertório. 

Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.

Clara linda linda Clara

Clara linda como o Sol;

Deixa-me dormir contigo

Na ponta do teu lençol.

 

Na ponta do meu lençol

Hoje sim amanhã não;

Meu marido não está cá

Foi à feira d´Assunção.

 

Onze horas meia noite

Marido à porta bateu;

Clara linda linda Clara

Clara linda não falou.

 

Clara linda está doente

Ou lá tem outros amores;

Ando à procura das chaves

Para abrir os corredores.

 

De quem é aquele chapéu

Que além está dependurado;

É para ti meu marido

Por minhas mãos acabado.

 

De quem é aquele capote

Que tem barra de galão;

É para ti meu marido

Acabado por minha mão.

 

De quem é aquele cavalo

Na minha loja guinchou;

É para ti meu marido

Foi teu pai co cá mandou.

 

De quem é aquele suspiro

No meu quarto suspirou;

Clara linda linda Clara

Caiu no chão e desmaiou.

 

Vai chamar as tuas irmãs

Para se despedirem de ti;

Que não vão fazer aos outros

O que tu me fizeste a mim.

 

Sete irmãs que nós somos

Todas filhas dum doutor;

Eu por ser a mais novinha

Caí no maior terror.


José Teodoro Prata

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