https://youtu.be/d91X9-Mlrug?si=-ZBkGiaUL0k6Iz94
Em
1962, Fernando
Lopes Graça e Michel
Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo
país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a
balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era
apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o
tema na voz de Mariana Vitorino.
Quase duas
décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu
álbum Romances.
Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu
repertório.
Entretanto, José Augusto Alves (poeta popular vicentino de quem publicámos, no verão passado, parte da sua poesia no livro Poesia Simples) registou por escrito a versão que ele conhecia, provavelmente desconhecendo a informação que apresentei acima. Estas histórias em verso passavam de boca em boca e quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. Por isso cada região contará uma versão desta história.
Clara linda linda Clara
Clara linda como o Sol;
Deixa-me dormir contigo
Na ponta do teu lençol.
Na ponta do meu lençol
Hoje sim amanhã não;
Meu marido não está cá
Foi à feira d´Assunção.
Onze horas meia noite
Marido à porta bateu;
Clara linda linda Clara
Clara linda não falou.
Clara linda está doente
Ou lá tem outros amores;
Ando à procura das chaves
Para abrir os corredores.
De quem é aquele chapéu
Que além está dependurado;
É para ti meu marido
Por minhas mãos acabado.
De quem é aquele capote
Que tem barra de galão;
É para ti meu marido
Acabado por minha mão.
De quem é aquele cavalo
Na minha loja guinchou;
É para ti meu marido
Foi teu pai co cá mandou.
De quem é aquele suspiro
No meu quarto suspirou;
Clara linda linda Clara
Caiu no chão e desmaiou.
Vai chamar as tuas irmãs
Para se despedirem de ti;
Que não vão fazer aos outros
O que tu me fizeste a mim.
Sete irmãs que nós somos
Todas filhas dum doutor;
Eu por ser a mais novinha
Caí no maior terror.
José Teodoro Prata
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