terça-feira, 6 de maio de 2014

Barbas de chibo

O período revolucionário 74/76,  que afinal foi o tempo em que eu estive na tropa, não ficou a dever nada à disciplina. Como exemplo, posso dizer que cheguei a entrar à Porta de Armas da Escola Prática de Artilharia, com sapatos, meias amarelas, calças de trabalho, camisa de saída, cabelo pelos ombros e barba.
Com vinte anos, se não há disciplina, a coisa descamba e eu não fui exceção. Deixei crescer a barba, não uma barba como se usa agora, curtinha, mas uma barba grande, à Fidel Castro, que me ficava ridiculamente ridícula. Era a idade do quanto mais estranho melhor.
Numa das minhas vindas à terra, encontrei a Céu Parrita acompanhada da comadre Aurélia. Quando me viu com aquelas barbas, começou a fingir que chorava. Eu, farto de conhecer a Céu Parrita, perguntei-lhe o que é que ela tinha e ela, sempre a choramingar, dá-me a seguinte resposta:
- Sabe meu senhor?, É que eu tinha um chibo que me morreu que tinha umas barbas iguais às do senhor e eu, quando o vi com essas barbas, lembrei-me do meu chibo. Eu gostava muito do meu chibo, porque ele cobria muito bem as cabras!!!
Se pensam que eu cortei logo as barbas, enganam-se. Daí para cá, sempre que encontrava a Céu Parrita, o cumprimento que ela me fazia era:
 - Sabe? Eu tinha um chibo!
No ano passado deixou de me fazer este cumprimento.
Paz à sua alma.

E H

4 comentários:

José Teodoro Prata disse...

É curioso que não me lembro desta parte da vida do Ernesto.
Fora-me próximo, no Seminário, mas, nesta época, eu ainda vivia no Tortosendo e nas férias ficava-me lá pelos altos, enquanto ele andava na tropa e pouco vinha a São Vicente.
Por exemplo, não me recordo dele com barbas!
Mas, por nestas histórias, percebo melhor algumas coisas...

Anônimo disse...

Como certamente diria o Eça: “O menino tem pilhéria!"
Não há dúvida, és filho do teu pai: são curtas, sarcásticas e incisivas!
Sobre aquela parte do gado caprino: no mundo antigo, ao nascer-se rapariga tinha que se ter muita sorte para não se ser sacrificada no Olimpo.
Com o macho, no mundo das cabras, é idêntico. Ao contrário delas, a maioria deles é que está feita ao…bife. É preciso uma sorte danada para um chibo ter a vida do chibo da Céu Parrita!
A vida é assim. Feita de sortes e azares!
Soube pelo teu artigo que a Céu Parrita tinha falecido.
Que encontre a Luz!

Abraço.
ZB

José Teodoro Prata disse...

Ernesto:
Tive hoje, na sala de aulas, um "Militar de Abril" que entrou na tropa no mesmo dia que tu, em Mafra. A esse, puseram-no logo a treinar fogo toda a tarde de 25, pois o quartel teria de proteger a retirada, caso a coisa desse para o torto.
Ainda nem sabia como era a G3 e já fazia fogo!!!

Anônimo disse...

Também não me lembro do Ernesto na fase das barbas de chibo. Já por cá não andaria… Mas foram impressionantes as transformações que se verificaram naquela altura!
A esse propósito, aquilo que mais vezes me ocorre foi uma cena passada no liceu de Castelo Branco, em 1973. Estava no corredor à espera que tocasse para entrar na sala e tinha o casaco atado à cintura. Quando a professora chega volta-se para mim e diz assim: «A menina é alguma mula?» Devo ter olhado para ela sem perceber muito bem. «Tire a albarda, porque assim não entra na aula.»
Passados dois anos, já no liceu Camões, até dentro da sala se fumava!...

M. L. Ferreira