quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A pedra da sobreposta


Nos nossos dias, muitos contos, lendas, lengalengas estão a desaparecer, as pessoas idosas, à medida que morrem, levam atrás de si grandes bibliotecas. Aquilo que distingue um povo são as suas tradições, usos e costumes.
Adiante.

Na encosta sul da serra da Guardunha, perto da vila da Soalheira, existe um enorme penedo que, segundo os entendidos, é o maior bloco granítico que existe em Portugal.
Certo dia de verão, andava um ganhão lavrando aquelas terras com sua junta de vacas. Estava um calor abrasador!
À hora do meio-dia, deixa a rabiça do arado, pega na bolsa da merenda, sobe um pouco a encosta, senta-se à sombra de um pinheiro que ficava no sopé do enorme mastodonte de granito, desembrulha o queijo que trazia guardado numa folha de couve, saca das azeitonas e do pão centeio e começa a comer.
O calor apertava, o suor caía do seu rosto, enquanto mastigava. E pensou:
- Raio de vida, com este calor! Não viesse uma trovoada e um raio partisse esta pedra em duas metades.
Continuou a mitigar a fome, enquanto as vacas comiam seu quinhão de caneirões.
Lá longe, muito longe, para os lados de Castelo Branco, uma nuvenzita muito levezinha e pequenina surgiu. O ganhão nem deu por ela.
Como um barco que começa por se ver só a ponta dos mastros, também a nuvem que parecia vogar no céu foi crescendo, crescendo…
Olhando para o horizonte, o ganhão disse:
- Parece que vem aí uma carga de água.
Escureceu, um raio rasgou a imensidão do céu, um trovão ribombou, a nuvem crescia cada vez mais. A chuva começa a cair intensamente, os relâmpagos sucedem-se uns atrás dos outros. Um estrondo enorme, uma peste corta a pedra ao meio, um grande bocado rebola encosta abaixo.
O ganhão, que minutos antes tinha praguejado, não teve tempo de fugir e ficou soterrado juntamente com o carro, as alfaias e as vacas.

Estive muitas vezes ao lado dela, porque andei algum tempo resinando os pinheiros que a cercavam. Respeitava-a pela sua enormidade.
Alguma coisa se terá passado ali, o bocado que jaz ao fundo terá estado algum dia unido ao que ainda se encontra erecto, altivo, enorme, desafiando os céus.
Esta pedra encontra-se numa propriedade que pertence aos herdeiros da família Rolão Preto. Impressiona pelo seu tamanho e grandeza.
De São Vicente à pedra da sobreposta são cerca de seis quilómetros. Muito perto, imponente, grande, semiabandonado, encontra-se o edifício onde outrora funcionou uma das mais importantes escolas do saber em Portugal, o Colégio de São Fiel.
Nele estudou, entre outros, Egas Moniz, até hoje o único prémio nobel da medicina português.

J.M.S

Um comentário:

Anônimo disse...

Não muito longe,(não me perguntem onde,já não sei o local) existe uma pedra que a natureza se encarregou de ocar e que servia de esconderijo ao político dr. Rolão Preto, era nessa pedra que se escondia da pide. Contém pequenas concavidades naturais no seu interior, onde os criados colocavam os mantimentos. Nessas alturas mandava o pastor embora e ficava ele a guardar as cabras
De vez em quando, era abordado pela pide, pensavam que era o pastor e perguntavam-lhe se não tinha visto por aquelas bandas o senhor doutor...
-"Pastor" respondia que não
No dia 27 de Junho de 1975 foi entrevistado na Soalheira; uma longa conversa
"(...)Falemos então do que sucedeu depois da candidatura de Delgado
-Escondi-me nessa altura na Beira-Baixa, um "pide" que agora está preso, confessou que esteve quinze dias à minha espreita aqui na Soalheira, (e Rolão Preto ri-se, fazendo um gesto em direcçãp à janela, da qual se vê parte da Quinta da Serra, onde fica a sua casa)... Mas a verdade é que me livrei então de ser preso." (História Contemporânea de Portugal), direcção de João Medina.
O buraco desta pedra está rente ao chão, só quem conheça o local sabe da sua existência. É um penedo razoavelmente grande. Certamente haverá pessoas que sabem onde se encontra,eu já não me lembro.
Antigamente aquelas encostas estavam cobertas de pinheiros e nós conhecíamos a serra como a palma das nossas mãos. Já passaram tantos anos, o pinhal deu lugar ao matagal. Certa tarde de verão estava eu, o pai do bom amigo Chico Barroso e o Zé Augusto, sentados à porta da "nossa casa", passaram dois senhores numa vereda, um era o Rolão Preto lavrador, o outro era o irmão político, iam de costas, não lhes vi a cara. Foi a única vez que o vi naquelas paragens.
Já agora e para rematar, quando da expulsão dos jesuitas do Colégio de São Fiel, contou-me a minha sogra que os padres disseram aos criados para levarem o que quisessem.As pessoas mais velhas diziam que a serra guarda tesouros deixados pelos padres quando fugiram.
J.M.S