segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Tempos que já lá vão



ANTIGAMENTE

Antigamente todos iam à missa
Ia o farmacêutico, ia o doutor
O fiscal, o cobrador
O camponês e o lavrador
A rameira e o curador
Antigamente todos iam à missa

Os senhores à frente altivos e compenetrados
Sentados nos cadeirões bem arrumados
O povo atrás em montellhão
Sentava-se no chão
Não tinha cadeirão
Ouvia o vigário
Que os incitava à oração
Antigamente todos iam à missa

O palio era pelos senhores transportado
Cada um pegava sua vara, três em cada lado
O vigário levava o crucificado
O suor caia cara abaixo, era pesado

O turibulo era levado pelo sacristão
Que o segurava na mão
O andor era carregado pelo povão
Pelos que fizessem a maior arrematação

As bandeiras eram içadas
Pelo povo com devoção
Senhoras ajudavam a levar o pendão
Pegando uma corda com a mão

No alto da torre os sinos tocavam
Dlim, dlão, dlim, dlão e a procissão
Percorria as ruas da vila e todos cantavam
Avé, avé… muitas velas acesas na mão

As janelas varandas e sacadas
Com lindas colgaduras enfeitadas
Algumas antigas e já amareladas
Outras mais pobres e usadas

A banda toca uma marcha dolente
De acordo com a função
Na nossa vila vai passando a procissão
E os músicos marcham cadencialmente

O suor cai em bagadas da cara do senhor prior
A cruz é muito pesada e está calor
No ar os foguetes continuam a rebentar
A procissão não há maneira de terminar
Das janelas soltam-se muitas pétalas de flor
Os anjinhos vão vestidos a rigor
À frente a campainha dlim, dlim a tocar
As irmandades não podiam faltar
Opas vestidas com o presidente a orientar
Muitos mirones na praça a olhar
À passagem do crucifixo vão ajoelhar
Muitos foguetes sobem para o ar
As bombas rebentam pum, pum
E a procissão continua a andar

Bendito e louvado seja o Senhor
Bendita a sua santa mãe
Teve seu filho na cidade de Belém
Onde foi adorado por muito pastor

A igreja está repleta
O Vigário começa o sermão
O povo senta-se no chão
O rico tem cadeirão

Foi bonita a procissão
O vigário explica o acto
E no momento exato
Dá por terminado o sermão

Diante da hóstia consagrada
O povo canta e reza uma oração
O vigário pega a custódia na mão
E toda aquela gente é abençoada

A custódia é incensada
Enquanto dá a benção o prior
De joelhos recebem-na com fervor
Deus está na hóstia consagrada

Juntam-se no largo da festa
Onde dança e convive o povo
Seja velho, criança ou novo
Porque não há outra como esta

Há música no ar
Foguetes a estoirar
Fogaças a leiloar
Frangos a assar
Copos de vinho a emborcar
E o povo dança até se fartar

Outrora é que era bom
Todos iam à missa rezar
Saudades! O mundo não pode parar
Hoje a música é outra, é outro o som

O pálio já ninguém o quer levar
Assim como as bandeiras e o andor
Os fiéis vão morrendo, Senhor
Onde é que tudo isto irá parar

Já não há procissões como antigamente
As tradições estão a morrer
É pena e a meu ver
A fé vai definhando lentamente

O mundo está precisando
De arautos que transmitam a fé
O bispo tem que sair da sua sé
E ir andando por aí pregando

Zé da Villa

2 comentários:

Anônimo disse...

Ao ler este texto do Zé da Villa, lembrei-me deste outro do Albano Mendes de Matos, em “A Casa Grande”:

«Foi ordenada e organizada a procissão. Estandarte, guiões, irmandade, com opas, archotes e lanternas, congregações, de fitas e medalhas ao pescoço, cruz processional, festeiros com as varas do mando e do poder na mão, andores de Senhoras, de Santos e de Santas, o do Senhor Santo Cristo a fechar, três padres sob o pálio de oito varas, às varas os fidalgos da Vila, Simão de Meneses, com o suor a escorrer pelo pescoço, na primeira vara da direita, e a filarmónica. Os anjinhos, com as mães ou as avós ao
lado, santinhas e santinhos, vestidos a rigor, tagarelavam à frente e atrás do Senhor Santo Cristo. À frente do cortejo processional, os homens, a fechar as mulheres, mais numerosas, porque alguns varões, chegando-se aos pipos, já se encontravam do meio-
dia para a noite, turvados da vista e do tino.
- Só vou se me comprar já o assobio, já disse – gritou o anjinho Ângelo, para a mãe.
- Cala-te, que o tens logo! – disse-lhe a mãe com voz ameaçadora.
Ao passar a procissão, as tendas das bugigangas foram tapadas com panos, em sinal de respeito pelo Senhor Santo Cristo. As tendeiras e os tendeiros, de joelhos no chão, reverenciavam o Senhor Santo Cristo no andor, e os ministros de Cristo, na sombra do pálio, arrastando os pés ao som da marcha processional, bufada nos contrabaixos e grilada nas requintas.
- É agora ou não? – disse o anjinho Ângelo para a mãe ao passar pela tenda onde tinha visto os assobios de barro.
A mãe puxou-o por um braço, para seguir na companhia e na ordem dos outros. Logo que se soltou, o Ângelo anjinho deu um pulo para o lado e, de imediato, espojou-se, de costas, no empedrado da rua. A armação das asas desmanchou-se e as penas brancas
espalharam-se pelos ares. E o anjinho ria!
Um assobio de barro era o que todas as crianças queriam e sonhavam!»

Quanto às conclusões do Zé, nem sei que diga, principalmente porque ainda estamos todos atordoados com os atentados em França (e na Nigéria, no Paquistão, na Síria, no Iraque...). O que se pode fazer em nome da religião!

M. L. Ferreira

Anônimo disse...

Pitágoras dizia: A melhor maneira que o homem dispõe para se aperfeiçoar, é aproximar-se de Deus.
Não podemos nem devemos abstair-nos daquilo que nos rodeia nem do que se passa na nossa aldeia global. Não se trata de confrontos entre religiões. Enfrentar os extremismos como disse o primeiro-ministro francês; "a França está em guerra contra o terrorismo, o jiadismo e o islamismo radical".
As três religiões monoteistas (Islão,cristã e judaica) devem unir esforços através do diálogo para que os extremistas possam ser vencidos.
A Europa dos nossos dias é composta de muitas culturas e crenças. Os povos que a compôem têm que saber conviver e respeitar-se mutuamente, mas também não podemos cair num marasmo tal que esqueçamos o nosso passado, as nossas tradições, porque alguém virá colmatar esse desleixo, depois...
-O grande mal do século XX envolvido em todos os nossos problemas, e afectando-nos individual e socialmente, é a "perda da alma". Quando a alma é desprezada, não se limita a desaparecer; aparece sintomaticamente em obsessões, vicios, violência e perda de sentido. (Thomas Moore; O Sentido da Alma).
A cultura europeia foi e ainda é, judaico-cristã. O papa Paulo VI no dia 24 de Outubro de 1964 proclamou São Bento padroeiro da Europa, é venerado tanto por cristãos como ortodoxos. João Paulo II em 19 de Outubro de 1967 proclamou Santa Teresa do Menino Jesus co padroeira da Europa.
Lembro São Francisco de Assis: É preciso perdoar, para ser perdoado.
J.M.S