terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Emigração, anos 60

Há anos, fui ver uma exposição ao Centro Cultural de Belém, sobre a emigração portuguesa em França.
Um autêntico murro no estômago, até às lágrimas! (Mesmo já sabendo eu que tinha sido assim.)
Aqui vos deixo algo parecido, que nos mostra quão duros foram aqueles anos do Eldorado.


Gérald Bloncourt (n.1926, no Haiti), pintor, poeta, jornalista, fotógrafo, activista político, desde muito novo exilado em França, foi neste país que fez a sua carreira como fotojornalista. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, tornou-se o fotógrafo dos emigrantes portugueses em França e retratou, com fotografias a preto e branco, o seu quotidiano de miséria nos "bidonvilles" (bairros de lata) nos arredores de Paris.

Impressionado com o que observou, veio a Portugal, fez os percursos da emigração e descobriu a realidade política e social que então se vivia. As suas fotografias de Lisboa, do Porto e da região de Chaves assim a documentam.

Em 1974, uns dias depois do 25 de Abril, voltou a Portugal e registou em fotografia alguns instantâneos e vivências das pessoas nas ruas de Lisboa.
No seu blog abaixo indicado está uma bem documentada reportagem fotográfica dos períodos referidos acima. Vale a pena visitá-la, para que não se apague da nossa memória a imagem dos riscos e sacrifícios de muitos portugueses que procuraram na emigração uma vida melhor. Infelizmente, nos dias de hoje, muitos milhares estão outra vez à procura, no estrangeiro, de uma vida digna, e com trabalho, que não conseguem ter em Portugal.

http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise..html

7 comentários:

Anônimo disse...

Gerard Bloucourt, percorreu algumas regiões de Portugal nomeadamente Lisboa, Porto e a região de Chaves
Terra dos descobridores do mundo como escreveu: Henrique o navegador; Vasco da Gama... Viu sórdidos bairros de lata em Lisboa, seguiu a rota da emigração
Meio século de obsurantismo, de miséria, de opressão. Foram anos desgraçados os que se viviam em Portugal na década de sessenta. Nesse tempo levas e levas de portugueses fugiram à miséria e partiram para terras desconhecidas à procura do pão que não encontravam nas suas. A primeira geração instalou-se como pôde nos arredores das grandes cidades começaram a crescer os bairros de lata, tudo era desconhecido, lingua, costumes. Tudo não; a fé era a mesma.
Foram subindo a vida a pulso amassada com sangue, suor e lágrimas. A vida melhorava cada dia que passava, passados todos estes anos os portugueses estão na sua maioria integrados na sociedade francesa
A miséria, as guerras coloniais, a pouca industria que havia concentrava-se em Lisboa e Porto maioritariamente. Portugal era um pais rural, atrasado e analfabeto
Salários de miséria, trabalhava-se de sol a sol. A guerra tinha deixado meia Europa devastada, tinha que ser reerguida novamente. Era chegada a altura de partir procurar melhor ventura, pior não encontrariam com certeza. A salto, passaporte de coelho, ei-los que partem cheios de esperança num futuro melhor para eles e suas famílias. Depois de muitas tribulações chegavam finalmente a terras gaulesas. O frio, a neve e oa maus momentos depressa se esqueciam. Os Pirinéus ficavam para trás. A mãe França recebia-os de braços abertos
O portugues não era esquisito, aliás nunca foi dá-se bem com todos os povos.(Afonso de Albuquerque tinha uma grande preocupação, mesclar os soldados portugueses casando-os com as mulheres de Goa...)
O lema era trabalhar para que a vida pudesse ser menos penosa, fosse nas obras, minas, estradas...Enterrados em lama até aos joelhos, sofriam calados estoicamente, sabiam que num mês ganhavam mais que em três ou quatro em Portugal. Gente heróica, de rija têmpera.
Com o vinte e cinco de Abril nasceu uma nova esperança para os portugueses, quarenta anos depois ei-los que partem, já não levam a mala de cartão na mão, levam saber, cultura, e uma saudade enorme da terra que os viu nascer. Portugal

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos
Tão doentes da partida
Tão cansados, tão chorosos
Da morte tão desejosos
Cem mil vezes que da vida

Partem tão tristes os tristes
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém

(Cancioneiro Geral)
João Roiz de Castel-Branco

J.M.S

PS disse...

Que não caia no esquecimento. Obrigado por este post tão oportuno.

Margarida Gramunha disse...

Li o livro "Longe do Meu Coração" de Júlio Magalhães e foi atraves dele que tomei conhecimento desta realidade. Das vidas que se perderam a dar o salto, das condições durissimas em que viveram nos bairro de lata, da forma como subiram a pulso... Ao ver as fotografias indicadas parece-me que as condições de vida cá eram afinal mais apróximadas às de lá do que imaginava.

José Teodoro Prata disse...

Atenção aos interessados no debate sobre o futuro do blogue: continuam a chegar comentários à publicação "O futuro do blogue".

Ernesto Hipólito disse...

Foi como uma facada quando o meu amigo José Manuel Prata, na altura com dez anitos ( colega de classe ), me confessou:
- Esta noite vamos para França a salto.
Desapareceram todos; ele, a mana mais velha a Manuela, o Joãozinho que eu adorava e claro a Sra. Carlota e o Ti Zé Prata.
Se para mim ficou um vazio, para eles deve ter sido horrível.
Migrar é sempre um dos últimos recursos a que se agarra um ser humano.
Naquele tempo talvez fosse pior, se olharmos à incerteza que acompanhava aquela gente. Fugiam da miséria e sonhavam com uma vida melhor. Isso deu-lhes força para vencer na vida. E quanta força foi precisa!.
Infelizmente e devido a estes governos superinteligentes, a migração continua. Só que agora estamos a exportar gente com formação a qual foi paga pelo governo. Estamos a deitar dinheiro fora mas sobretudo a desperdiçar mão de obra de qualidade que nos faz falta. Até quando?.

E.H.

Anônimo disse...

Estas fotografias são realmente um murro no estômago, mesmo que mostrem uma realidade que muitos de nós conhecíamos ou de que tínhamos ouvido falar. Em muitas delas quase reconheci os meus pais e algumas daquelas crianças, de olhar tão triste, poderíamos ser alguns de nós.
Parece quase paradoxal que tantos homens e mulheres tenham deixado o país para irem trabalhar e viver em condições tão desumanas, mas encontramos a resposta no último bloco de fotografias que mostra a pobreza que se vivia em Portugal. Lá, ao menos, tinham um salário justo que lhes permitia matar a fome à família que ficou por cá ou, em muitos casos, se lhes juntou depois. Felizmente que a maior parte dos nossos emigrantes foi bem sucedida e conseguiu concretizar os seus sonhos!
O que nos deve fazer pensar é que atualmente ainda existam bairros da lata em Lisboa; tanta gente a viver como bichos por todo o lado; a morrer de fome no mundo inteiro e,
principalmente, a arriscar a vida para mudarem o destino. Lampeduza é uma vergonha mundial!
Hoje, a propósito das comemorações dos setenta anos do encerramento de Auschwitz, um dos sobreviventes, referindo-se ao holocausto, dizia mais ou menos o seguinte:
“Não podemos deixar que acontecimentos tão horrorosos como estes, possam ser o futuro dos nossos jovens”.
Acho que podemos alargar o âmbito destas palavras ao fenómeno da emigração, principalmente quando obriga tantos jovens a procurar o futuro longe de casa.
Que bom seria se globalização quisesse dizer que o mundo é um sítio onde todas as cores, todas as culturas, mas sobretudo todos os sonhos, se misturam...

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Aquando da extinção de alguns feriados, admirei-me por a Igreja Católica ter escolhido o Dia de Todos os Santos, uma das datas mais importantes do calendário religioso, a nível popular (pelos vistos não a nível da hierarquia).
É que as portagens e o fim deste feriado poderão significar, para muita gente, a perda das referências que são as suas raízes (este ano a questão foi mitigada, por generosidade do calendário).
Há algumas semanas, uma colega lamentava-se que tinha projetos de uma casa no campo, de dias festivos passados com filhos e netos e afinal não valia a pena fazer planos, pois eles irão (ainda não foram) dispersar-se pelo mundo e nós, os mais velhos, ficaremos sozinhos.
Mais uma vez, a perda dos laços, das referências como membros de certa família e comunidade.
Há meses faleceu-me uma colega. Telefonei a antigos alunos dela e meus e, no funeral, os dois que participaram disseram-me que não tinham conseguido contactar mais ninguém, porque estavam quase todos no estrangeiro (jovens de cerca de 25 anos).
Não sou saudosista e a esta emigração também tem coisas boas, nem que seja por dar resposta a problemas que aqui não têm solução. Mas, a nível sociológico, muita coisa mudou e vai mudar!