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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Carta do Brasil

Chamava-se Tiago, o forasteiro do capítulo do livro Adeus Aldeia, publicado a 7 de Maio, com o título O Hortas. Isto no romance, pois na realidade era o pai da autora (Maria de Lourdes Hortas), de seu nome Manuel Joaquim Hortas.
Chegou a S. Vicente da Beira, viu, venceu e emigrou.
A chegada, já a conhecemos, pela recriação de sua filha.
Viu a loja, a farmácia, e comprou-a. Também arrendou a casa número 15 da Rua do Convento, onde lhe nasceram as duas meninas.
A farmácia dava-lhe para viver sem privações e amigos não lhe faltavam. Inseriu-se bem na vida local e até se gabava de ser o político-mor.
Mas o senhor Eduardo Cardoso relembrou-lhe o Brasil que lhe levara o pai na infância. Então partiu também, num ajuste de contas com o destino.
De lá, escreveu ao senhor Ernesto José Hipólito, Digno Alfaiate, como o intitulou no endereço do envelope, e seu amigo.
A carta que a seguir se reproduz foi-me facultada pelo Ernesto Hipólito, filho, e é um óptimo retrato de alguns aspectos da nossa terra, em meados do século XIX.
Está escrita à máquina, em papel vegetal. Os parágrafos são da minha responsabilidade, para facilitar a leitura. Também se acrescenta, entre parêntesis, a correcção de dois verbos, para uma melhor compreensão.
Se preferirem ler no original, clicar na imagem que se segue.




Recife, 9 de Janeiro de 1951

Meu caro Ernesto

Desejo que te encontres bem de saúde e bem assim todos os teus, nós vamos bem graças a Deus. Como prometi cá estou dando as minhas noticias e tambem sabendo como tens passado e ao mesmo tempo aproveito para te pedir para escreveres para o Fundão para que considerem o Senhor Eduardo Cardoso assinante do Jornal e como tambem me podes considerar a mim os pagamentos seram(serão) feitos tanto do meu como o do Senhor Eduardo pelo meu sogro a quem deves dar conhecimento deste meu pedido.
Então já conseguistes fundar um club de Futeból? Venho diserte que se tu conseguires um campo bom não o que existe podes contar com a fundação do club, pois daqui te mandaram(mandarão), calções, bolas, camisolas e botas mas não para jugar num campo como esse cheio de pedras.
Tens vendido muita tinta, pelo que sei tu tens tirado a freguesia da farmácia, por isso tens que deixar essa industria de tintureiro de contrario a Farmacia não vinga. Soube por alguém que já foi feito um apelo na Igreja para que ajudem a Farmacia; eu lembrava uma sugestão: Entrega-la ao Senhor Santo Cristo e talvez assim ela possa funcionar elegalmente, visto que enquanto esteve elegal não foi preciso faser apelos, legalisaram-na estragaran-na (é como diz o outro, limpastes estragas-tes) mas não compriendo como esteja a fazer pouco negocio como sabes ela na minha mão ia dando pois eu vivi ai 6 anos só da farmácia e como todos sabem eu vivia bem.
Tambem soube que o Guarda Rios comprou um carro fiquei satisfeito em saber que está progredindo, peço-te que escrevas e digas alguma coisa destas coisas, como deves compriender quem está longe da Patria gosta de saber noticias.
Junta, sempre a mesma para variar, Hospital bem entregue e por isso sinto satisfação. Como vai o Nosso João Ribeiro, João Lino, Arrebótes e todos esses amigos, escreve carta grande não tenhas preguiça.
Minhas garotas falam muito em ti e pedem para enviar vesitas, assim como minha mulher se recomenda para todos.
Sabes se já receberam ai uma maquina que os Senhores Cardosos ofereceram ao Hospital? Procura ao Senhor João Lino ou Joaquim Ribeiro e que acusem a recepção, já á muito que se encontra em Lisboa em casa de D. Isaura.
Tua caspa desapareceu? usa o remédio por que é barato.
Eu estou satisfeito em ter saído dai, isto por aqui são outras terras, pelo menos não á ditos e o calor tambem se soporta bem eu pouco estranhei e mesmo nada, e espero se Deus me der sorte e saúde voltar um dia para o nosso S. Vicente, voltando a ser ai o pulitico mór esto se não mudar de edeias.
O Senhor João Lino já tem o carro na praça? Oxalá que sim.
Peço-te o favor de apresentares cumprimentos a todos esses amigos e tambem a tua mãe teu sogro, teu avô tua esposa e a quem por nós procurar e tu recebe um grande abraço do que fica ao teu inteiro dispor e amigo certo.

Manuel Joaquim Hortas

Rua da Conceição nº 59 – Recife – Pernambuco - Brazil