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quinta-feira, 5 de abril de 2012

De volta aos anos 40

FESTAS

E havia as festas…
Ainda posso lembrar a sensação de leveza
quando trocava vestidos de Inverno pelos da Primavera
e meias de lã pelas de renda
a brisa do fim de março me arrepiando as pernas.

Era um tempo como este
rosas e pássaros, começo de Primavera
roxos e lutos de semana Santa
matracas e lanternas
visitações, casas caiadas
amêndoas coloridas
compadres, comadres, folares, pães de ló
procissões, aleluia, vinho cor de rubi.

Mas as grandes festas aconteciam no fim do Verão:
Setembro, feira na praça, tendas
pevides negras rebrilhando ao sol
no coração rubro das melancias abertas
louça de barro vidrado
pássaros de madeira martelando assas
cavalos, ouro cintilante no veludo negro
de ourives cigano.

Além da presença das cegonhas
maravilha branca
pesado vôo
hóspedes no campanário da igreja matriz.
Maiores e mais brancas do que as suas asas
somente as dos anjos da aldeia
na procissão, eu e a minha irmã entre eles
suadas, desmantelados anjos, caminhando ao compasso da banda
sobre as pedras da rua, atapetada de ramagens.

Atordoada pelos foguetes
derrubava minhas asas
escondendo-me, de cócoras
entre as pernas dos adultos, túnica arregaçada
mãos protegendo os ouvidos
pelas frestas dos olhos mal fechados
vendo fugir as canas sibilantes
assustando rebanhos no céu.

(Maria de Lourdes Hortas, Cantochão de Todavia, Gega, 2005, São Vicente da Beira)



Anjinhos atrás do Santo António, na Procissão dos Terceiros, 2011

Que sorte termos alguém que tão bem passou para os versos as nossas tradições! Neste ano sem festividades quaresmais e pascais, o poema ganha um sabor especial.
Cegonhas? Já tinham deixado de vir nos meus anos 60 e ainda não voltaram no atual repovoamento.
E o vinho cor de rubi... Numa Páscoa, o meu pai levou-me com os outros homens, eu menino, a uma adega particular, na rua Dona Úrsula. Cor e sabor carregados e leves, a um tempo, os daquele néctar. À saída, o meu pai comentou: "Bom vinho, era como carne!"

sexta-feira, 2 de março de 2012

A vila da infância

FLUIDA ESPIRAL

Naquele tempo a aldeia era povoada.
Antigas canções de roda ecoavam na praça:
Quantos peixes há no mar? Eu nunca lá fui ao fundo…
Mais antigos, contudo, eram os cânticos da fonte
segredos de milénios guardados em novelos de eternas águas.
Escondida atrás do coreto, olhos fechados
voltada para as heras das paredes
Muitas vezes perguntei: É hora?
Vozes de outras crianças, trazidas pelo vento, respondiam, dolentes
ainda não, ainda não, ainda não…

Enquanto isso, velhos paravam à sombra das árvores
enrolando cigarros, ritual para melhor desenrolarem histórias
memórias de outros tempos, fluida espiral
fio azulado de fumaça, onde recuperavam o fio do passado.
Carros-de-bois chiavam pelas ruas
burrinhos trotavam, pachorrentos
transportando figuras negras
mulheres sentadas de lado, sob a sombrinha aberta
fizesse chuva ou sol
umas vezes indo, outras regressando dos campos.
E baliam cabras, vigiadas pelo pastor
entre toques de sino – alvorada ou crepúsculo.
Na ribeira, misturava-se o canto das águas viajantes
e o canto das lavadeiras, intervalo de linho e espuma
enquanto os maridos andavam nos montes e nas searas
estrelas que partem, estrelas que retornam
dia vai, dia vem, verões e invernos
flores que nascem e se esfolham.

(Maria de Lourdes Hortas, Cantochão de Todavia, Gega, 2005, São Vicente da Beira)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

João Pereira de Carvalho

Quem foi João Pereira de Carvalho, uma das quatro pessoas que arrematou a compra das pedras do extinto convento franciscano?
Já encontrara o seu nome, na listagem dos notários de São Vicente da Beira do Arquivo Distrital de Castelo Branco. Há muita documentação por si redigida, relativa a testamentos e contratos de compra e venda dos anos de 1842, 1845, 1848, 1849, 1856, 1858, 1859, 1862, 1864, 1866, 1868, 1869, 1871, 1874 e 1876.
Não existem documentos de muitos anos entre 1842 e 1876, mas isso não significa que tenha interrompido a sua função de notário, pois os documentos podem ter-se perdido ou encontrar-se na posse de particulares.
Este João Pereira de Carvalho era natural das Sarzedas, filho de Luis Marques Pereira e Quitéria Rosa de Carvalho. Casou, em S. Vicente da Beira, no dia 11 de Outubro de 1843, com Ana Augusta Ribeiro Robles, filha de Bernardo António Robles e de Antónia Raimundo Ribeiro.
(Arquivo Distrital de Castelo Branco, Registos paroquiais de S. Vicente da Beira, "Assento dos Casados", maço 96, livro 1803-1859, fólio 122)
O matrimónio ocorreu 1 ano e 10 meses depois de vir trabalhar, como notário, para São Vicente, pelo que talvez tenha conhecido a sua futura esposa já depois de residir nesta vila.
O casal teve José Augusto Pereira de Carvalho, pai de Virgínia Maria da Conceição Pereira. Esta casou com José Maria dos Santos, os pais dos irmãos Pereira dos Santos que todos conhecemos.
Os membros destas três gerações habitaram a casa da família, na Rua do Convento, números 30 a 38. João Pereira de Carvalho terá comprado pedras do extinto convento para construir ou reconstruir essa habitação. Mas a atual fachada do edifício data de meados do século XX, como aqui já foi referido.
No número 30 existiu uma forja de ferreiro, durante muitos anos do século XX.
Maria de Lurdes Hortas viveu, na casa em frente.
Anos mais tarde, registou as lembranças da sua infância, nos versos de um poema.

EM FRENTE À CASA DA INFÂNCIA

Em frente à casa da infância havia um ferreiro.
Além das ferraduras para cavalos, suas mãos grandes e pesadas
fundiam o sol em sua forja. E sucedia que, ao acordar, eu me precipitava
para a janela a tempo de ver
as faíscas da luz escapulindo pelo escuro vão da porta do ferreiro
diluindo-se na neblina da rua.
Da mesma janela via surgir, no postigo do primeiro andar, a velha:
de vestes tão negras como o tempo que atravessara
e de cabelos tão alvos como a farinha que, todos os dias, àquela mesma hora peneirava.
Da casa voejava uma poalha de prata.
Se fosse Inverno, a neve parecia escapar-lhe da peneira
polvilhando a aldeia de silene magia.


(Maria de Lurdes Hortas, "Cantochão de Todavia", edição do GEGA, 2005, São Vicente da Beira)

Pedido: Outra pessoa que comprou pedras do convento foi a Ex.ma D. Anna de Brito Coelho de Faria. Tenho informações escritas sobre esta família, muito importante em São Vicente, no século XIX, mas nada sei sobre onde morava, se ainda lá vivem descendentes...
Agradeço qualquer informação, a quem souber alguma coisa.


Nota: Este texo foi completado a 26/01, na sequência do comentário de Paulo Duarte de Almeida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Saudade

Dois poemas da escritora Maria de Lurdes Hortas, nascida em São Vicente da Beira, mas radicada no Brasil desde menina.
Lembrança dos que estão longe, divididos entre dois mundos, aquele em que vivem e o que tiveram de deixaram.


DUPLA

Presente aqui.
Ausente além.
E vice-versa, sempre.
Assim, tão dupla
é que sou inteira.


ECO DE GONÇALVES DIAS

Minha terra tem coqueiros
onde pousam rouxinóis.
Minha terra tem pinheiros
onde canta o sabiá.
As aves da minhas terras
cantam cá e cantam lá
sempre ao inverso de onde
as deveria escutar.

Poemas publicados no suplemento IDEIAS, n.º 3, do Jornal do Fundão (04-05-1990)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Carta do Brasil

Chamava-se Tiago, o forasteiro do capítulo do livro Adeus Aldeia, publicado a 7 de Maio, com o título O Hortas. Isto no romance, pois na realidade era o pai da autora (Maria de Lourdes Hortas), de seu nome Manuel Joaquim Hortas.
Chegou a S. Vicente da Beira, viu, venceu e emigrou.
A chegada, já a conhecemos, pela recriação de sua filha.
Viu a loja, a farmácia, e comprou-a. Também arrendou a casa número 15 da Rua do Convento, onde lhe nasceram as duas meninas.
A farmácia dava-lhe para viver sem privações e amigos não lhe faltavam. Inseriu-se bem na vida local e até se gabava de ser o político-mor.
Mas o senhor Eduardo Cardoso relembrou-lhe o Brasil que lhe levara o pai na infância. Então partiu também, num ajuste de contas com o destino.
De lá, escreveu ao senhor Ernesto José Hipólito, Digno Alfaiate, como o intitulou no endereço do envelope, e seu amigo.
A carta que a seguir se reproduz foi-me facultada pelo Ernesto Hipólito, filho, e é um óptimo retrato de alguns aspectos da nossa terra, em meados do século XIX.
Está escrita à máquina, em papel vegetal. Os parágrafos são da minha responsabilidade, para facilitar a leitura. Também se acrescenta, entre parêntesis, a correcção de dois verbos, para uma melhor compreensão.
Se preferirem ler no original, clicar na imagem que se segue.




Recife, 9 de Janeiro de 1951

Meu caro Ernesto

Desejo que te encontres bem de saúde e bem assim todos os teus, nós vamos bem graças a Deus. Como prometi cá estou dando as minhas noticias e tambem sabendo como tens passado e ao mesmo tempo aproveito para te pedir para escreveres para o Fundão para que considerem o Senhor Eduardo Cardoso assinante do Jornal e como tambem me podes considerar a mim os pagamentos seram(serão) feitos tanto do meu como o do Senhor Eduardo pelo meu sogro a quem deves dar conhecimento deste meu pedido.
Então já conseguistes fundar um club de Futeból? Venho diserte que se tu conseguires um campo bom não o que existe podes contar com a fundação do club, pois daqui te mandaram(mandarão), calções, bolas, camisolas e botas mas não para jugar num campo como esse cheio de pedras.
Tens vendido muita tinta, pelo que sei tu tens tirado a freguesia da farmácia, por isso tens que deixar essa industria de tintureiro de contrario a Farmacia não vinga. Soube por alguém que já foi feito um apelo na Igreja para que ajudem a Farmacia; eu lembrava uma sugestão: Entrega-la ao Senhor Santo Cristo e talvez assim ela possa funcionar elegalmente, visto que enquanto esteve elegal não foi preciso faser apelos, legalisaram-na estragaran-na (é como diz o outro, limpastes estragas-tes) mas não compriendo como esteja a fazer pouco negocio como sabes ela na minha mão ia dando pois eu vivi ai 6 anos só da farmácia e como todos sabem eu vivia bem.
Tambem soube que o Guarda Rios comprou um carro fiquei satisfeito em saber que está progredindo, peço-te que escrevas e digas alguma coisa destas coisas, como deves compriender quem está longe da Patria gosta de saber noticias.
Junta, sempre a mesma para variar, Hospital bem entregue e por isso sinto satisfação. Como vai o Nosso João Ribeiro, João Lino, Arrebótes e todos esses amigos, escreve carta grande não tenhas preguiça.
Minhas garotas falam muito em ti e pedem para enviar vesitas, assim como minha mulher se recomenda para todos.
Sabes se já receberam ai uma maquina que os Senhores Cardosos ofereceram ao Hospital? Procura ao Senhor João Lino ou Joaquim Ribeiro e que acusem a recepção, já á muito que se encontra em Lisboa em casa de D. Isaura.
Tua caspa desapareceu? usa o remédio por que é barato.
Eu estou satisfeito em ter saído dai, isto por aqui são outras terras, pelo menos não á ditos e o calor tambem se soporta bem eu pouco estranhei e mesmo nada, e espero se Deus me der sorte e saúde voltar um dia para o nosso S. Vicente, voltando a ser ai o pulitico mór esto se não mudar de edeias.
O Senhor João Lino já tem o carro na praça? Oxalá que sim.
Peço-te o favor de apresentares cumprimentos a todos esses amigos e tambem a tua mãe teu sogro, teu avô tua esposa e a quem por nós procurar e tu recebe um grande abraço do que fica ao teu inteiro dispor e amigo certo.

Manuel Joaquim Hortas

Rua da Conceição nº 59 – Recife – Pernambuco - Brazil


sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Hortas

«Uns poucos casebres dispersos. Uma quinta. Depois as hortas. Mais para longe, os campos de oliveiras. Então, um velho moinho d´água e, logo a seguir, o monumento com escadas diante do cemitério.
A uma velhinha que passava o viajante interroga. E ela diz-lhe:
- Continue por esta estrada, e desça até à esquina. Verá daí uma praça, e nela uma taberna. Pergunte que hão-de informá-lo.
Pela estrada foi e ei-lo dentro da povoação, com suas ruas de pedras reboludas, ruas estreitas, de antigas casas, muitas delas arruinadas.
E logo se viu na dita praça. Com um pelourinho de vila, coluna de granito, encimada por símbolos misteriosos, pássaros e barcas, sabe deus de quê, que mistério e que tempo ali inscritos.
Guiou o cavalo a passo lento e parou em frente à porta onde alguns aldeões se encostavam, logo a olharem para ele de esguelha da forma que se olham os forasteiros. Apeado, foi prender a montaria à argola de ferro, ali como em outros lugares, com a finalidade referida. Deu os bons dias a todos e, entre dentes, os nativos deram-lhe troco na mesma moeda, porém com muito menos entusiasmo.
Entrou. O taberneiro aguardava. Repetiu a saudação:
- Bons dias, ponha aí um copo, tio, que o tempo não está para brincadeiras.
O taberneiro investigou-o com olhar desconfiado e aproximou-lhe a caneca, no balcão.
Depois, no silêncio, uma cabra baliu, pondo a cabeça para dentro da venda. Um pastor aproximou-se:
- Então, o amigo parece vir de longe…
Seguindo-lhe o exemplo, os demais fregueses se aproximaram sem cerimónia, para conferir se o velho Estêvão estava com a razão.
Tiago tomou o seu trago de vinho e olhou tranquilamente a assistência à sua volta. Viajante calejado, sabia que aquela era a primeira pergunta do inquérito a que o submeteriam. Respondeu:
- Se venho de longe? Bom, isso depende o que se chama longe. A verdade é que meu modo de vida é viajar, e por isso, para mim, talvez as distâncias pareçam mais curtas.
Não era mal encarado o peregrino. Antes pelo contrário. A fisionomia do dono da casa aligeirou-se num cordial sorriso:
- Mas o amigo tem cá família? Ou veio em negócios?
Tiago procurou no bolso os apetrechos de fumar, começando então a embrulhar um cigarro:
- Família? Não, não tenho.
Na primeira bofarada acrescentou:
- Mas talvez vossemecê me possa ajudar: como poderei encontrar, aqui em São Joaquim da Serra, os herdeiros de uma loja de comércio que anunciaram para venda, num jornal?»

O forasteiro fez negócio e, recém-casado, mudou-se para a nova terra. Ali lhe nasceram as duas filhas, Maria Daniel e Maria de Lourdes.
Foi esta que assim reconstituiu, em Adeus Aldeia, o primeiro contacto do seu pai com São Vicente da Beira.

Maria de Lourdes Hortas, Adeus Aldeia, Sólivros de Portugal, Trofa, 1990