Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
sábado, 2 de março de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
A menina e o poeta
Aos
onze anos fui trabalhar para Castelo Branco, estive lá dois anos e depois vim
para a Casa Conde, em 1947 ou 48. O feitor era o senhor José Lourenço que vivia
na casa com a mulher, o filho e a nora. Mas ele e a mulher iam dormir à casa do
convento, na Cerca.
José Teodoro Prata
com colaboração de Luzita Candeias
Como
eram duas casas grandes e muito trabalho, havia mais duas criadas, uma criada
de voltas e a cozinheira. Numa semana eu lavava a roupa, na semana seguinte
limpava as casas. Eu gostava muito de cozinhar e a cozinheira deixava-me. Mas,
como ainda era pequena e não chegava ao fogão, punha-me em cima de um meio
alqueire para lá conseguir pôr as panelas.
Às
vezes estava a passar a ferro e o senhor José Lourenço no escritório. Ele
queria que o concelho voltasse e andava a escrever uns versos para eu ir cantar
à Fonte Velha.
Vinha
ter comigo e dizia-me: “Ó Eulália, canta lá agora esta.”
Querido S. Vicente,
Nosso protetor
Para vos ver contente, amor,
Vai novo, vai velho, vai tudo a pedir,
que torne o concelho a vir.
Foi terra muito importante
Lá nos seus tempos de glória.
Ainda tem alguns pregões
Que lhe servem de memória.
Querido S. Vicente,
Nosso protetor
Para vos ver contente, amor,
Vai novo, vai velho, vai tudo a pedir,
Que torne o concelho a vir.
Se nós trabalharmos
Todos de amor e vontade
O concelho virá já, já.
Se não trabalharmos,
De amor e vontade,
O concelho virá mais tarde.
Não
sei se havia alguma cerimónia, mas não cheguei a ir lá.
Ele
tinha uma caderneta para cada mercearia. Fazia compras em todas, para todos
andarem contentes: Chico Tavares, Manuel da Silva, Aurélio e Francisco Matias.
Quando uma criada ia às compras, levava a caderneta e o merceeiro apontava
tudo. No fim do mês, faziam-se os pagamentos.
Onde
agora mora a ti Janja, era o forno deles. A Luz Jerónimo é que trabalhava como
forneira, mais o marido, o Albertino Henriques. Todos os dias cozia o forno,
menos ao domingo. Quem lá ia deixava a poia: um pão por cada tabuleiro e dois ou
três bolos por cada lata. Como coziam várias pessoas ao mesmo tempo, cada uma
punha um sinal nos seus pães, para os conhecer. À noite, a forneira pegava no
cesto do pão da poia e ia à Casa Conde fazer a divisão, metade para cada um.
Como nós não conseguíamos comer o pão todo, nas quartas-feiras de manhã dava-se
o pão aos pobres. Cortava-se cada pão em dois ou três pedaços e oferecia-se a
quem viesse à porta.
Pelo
São Martinho, a malta nova juntava-se em grupo e ia cantar e pedir o vinho novo
aos ricos. No ano em que eu lá trabalhei, vieram à Casa Conde. No fim de
cantarem, o Sr. José Lourenço veio à porta e respondeu-lhes:
Cantam muito bem e muito lindo
Mas este ano o vinho já está findo
Os
rapazes insistiram e, como não lhes davam nada, cantaram o trinta martelos:
Trinca martelos
E torna a trincar
Este barba de farelos
Não tem nada para nos dar
O
Sr. José Lourenço e a Dona Palmira foram dormir para a casa do convento, mas os
rapazes não largaram a porta. Então a Menina Belinha e o Menino Antoninho
regaram-nos com um regador, da varanda, e eles abalaram a fugir, todos
molhados.
Nos
Santos, as crianças vinham pedir um santorinho. Havia um cesto cheio de nozes e
cada um só podia meter uma vez a mão e levar as que conseguisse tirar. Alguns
ficavam muito tempo com a mão lá dentro, a esticar os dedos para apanharem mais
nozes.
Os
diospiros vendiam-se a um tostão cada um. No fim da escola, as crianças vinham
comprá-los. Aliás, toda a fruta era para vender, o pessoal da casa só podia
comer a fruta caída.
Uma
noite, o Sr. José Lourenço estava em casa e viu pela janela os ramos do diospireiro
a abanar. Mandou um sobrinho ver o que era, porque a viúva do irmão dele
trabalhava lá com os dois filhos. O rapaz voltou e disse que era o irmão dele.
“E quem mais, não era só uma pessoa!” O rapaz respondeu a custo: “Mais o Mudo.”
O senhor José Lourenço chamou a cunhada e disse-lhe que o filho estava
despedido e só ficava se ele lhe pedisse perdão de joelhos. A senhora chorava,
pois não tinha para onde ir, mas o filho não queria pedir perdão. Andaram nisto
quinze dias, mas nesse tempo havia poucos trabalhos e o rapaz acabou por vergar.
Foi uma coisa que me fez muita impressão. Na vereda, com a mãe e o filho a
chorarem muito, o rapaz pôs-se de joelhos no chão, em frente ao tio José
Lourenço, e pediu-lhe perdão.
Ele
era muito rigoroso, mas também era bom homem. Dava trabalho a muita gente,
sobretudo aos mais velhos que já não podiam andar ao dia. Devia pagar-lhes um
pouco menos, mas para eles era bom.
Eu
vim-me embora por causa de uma coisa que se passou com a Dona Palmira. No fim
de servirmos as refeições, se a comida que sobrava era para guardar para outra
refeição, ela mandava-me guardá-la num certo armário e dizia-nos o que devíamos
comer. Um dia, a comida foram lulas e no fim a Dona Palmira não me mandou
guardar o resto. Eu trouxe para a cozinha e foi dividido pelas três criadas:
uma colher para cada uma. À hora de preparar o jantar, a Dona Palmira destinou
a comida para cada um e disse que o senhor José comia o resto das lulas. A
cozinheira respondeu-lhe que já as tínhamos comido, porque ela não mas tinha
mandado guardar. A Dona Palmira ficou muito exaltada e ralhou comigo aos
gritos, porque eu é que as tinha trazido para a cozinha.
Nos
dias seguintes, ela ficou na casa do convento e eu mandei dizer à minha mãe que
me despedia. A minha mãe veio à Casa Conde e disseram-lhe que eu podia ficar se
fosse pedir desculpa à Dona Palmira. A minha mãe disse que eu é que decidia, mas
que a colher que eu tinha deixado em casa ainda lá estava, por isso a decisão
era minha. E eu não quis ficar, pois não ia pedir desculpa por uma coisa que
não era só eu que tinha feito.
José Teodoro Prata
com colaboração de Luzita Candeias
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Fomos à taberna do Raposo
Por volta das 21 horas, a taberna já estava cheia. Os homens,
ao balcão, conversavam e bebiam o seu copito; as mulheres, mais recuadas,
divertiam-se a cantar. E como cantavam bem! Ou não estivesse no grupo a Zulmira
fadista…
Foi precisamente a ela que coube iniciar a apresentação dos testemunhos sobre a Quaresma. Falou da Ladainha.
Foi precisamente a ela que coube iniciar a apresentação dos testemunhos sobre a Quaresma. Falou da Ladainha.
Coube aos irmãos Zé Manel e João Maria Mosca, através de dois
textos carregados de memórias e bom humor, fazer o percurso das muitas tabernas
que existiram na nossa terra: a da Viúva, mesmo ao pé da Praça; a do João
Cocho, no largo da Fonte Velha; A do Arrebotes, na rua da Igreja; a do Mosca,
substituído pelo Marcelino, um pouco mais acima; a do Zé Canhoto, mesmo em
frente da igreja e que era a última ou a primeira capelinha visitada antes ou
logo a seguir à missa. Claro que não foram esquecidas as do Marcelino e a do
Francisco Eurico, no Casal.
Como eram importantes estes locais para a vida da nossa
Vila! Para além de outros aspetos, eles definiam bem o extrato social da
população assim como o papel da mulher, do homem e da criança na família e na
sociedade. As pessoas mais abastadas não as frequentavam e também não ficava
bem às mulheres lá entrar. A única exceção era a Maria Quefuma que ia comprar o
macito de tabaco e aproveitava para beber o seu copinho… Quanto às crianças, só
lá entravam quando, a mando da mãe, tinham que ir chamar o pai se já se fazia
tarde para o jantar ou para a ceia. Mas ai deles se o pai já estivesse tocado;
era tareia ou descompostura certa!
E as bulhas ao final das tardes de domingo? Começavam dentro
da taberna, mas acabavam arrastadas para a rua. Eram uma aflição para as famílias
dos envolvidos, mas eram também um espetáculo para as outras pessoas que se
juntavam à volta para ver quem levava a melhor. Felizmente que era apenas o
vinho a falar mais alto e, no dia seguinte, já não restavam sinais de zanga e
as amizades eram facilmente restabelecidas com mais um copito…
E os jogos da malha, do nocho ou do burro que se organizavam
à volta das tabernas?
Tanta coisa que fica por dizer…, mas com a chegada da
televisão, e mais tarde a electricidade, as tabernas foram dando lugar aos
cafés: o da Tomásia, o da Ti Janja, o do Cagarola, o do Ventura, e outros que se
lhes seguiram. Enchiam-se todos, principalmente ao domingo, para ver as matinés
a comer tremoços ou amendoins, ou a sorver até à última gota os gelados que não
eram mais do que um cubo de água misturada com um xarope qualquer, mas sabiam
melhor do que os mais cremosos gelados da Olá atuais!
A propósito da cerimónia do Lava-Pés, o Zé Pasteleiro
contou-nos uma história que nos fez rir a todos: num ano, faltou um apóstolo e
o coveiro do Casal da Serra foi-se oferecer ao Sr. António Maria que o mandou
ir lavar os pés. Ele foi ao chafariz e lavou apenas um. Mas na missa
mandaram-lhe descalçar o outro. No final, o sacristão, muito zangado, perguntou-lhe
se não lhe mandara lavar os pés. O coveiro respondeu: “Então, eu lavei um e
agora Sr. Vigário lavou-me o outro!”
Também a propósito da Semana Santa, o Zé Teodoro contou-nos
uma história passada com ele. Numa Sexta-feira Santa foi ajudar a irmã Fátima a
semear as batatas, pois o Joaquim emigrara para França. Acontece que, segundo
ele, daquela sementeira nem uma batata nasceu! Terá sido por ser dia santo?
Alguém dos presentes sussurrou que foi falta de jeito do agricultor, mas
sabe-se lá…
A seguir, ouviu-se o fado pela voz
da Zulmira e a guitarra (ou seria viola) do Fernando Pereira (Padrimúsico).
Mesmo sem ensaios, foi um momento bonito e contagiante. Viu-se bem como ambos
gostam e percebem do que fazem e tiveram a generosidade de o partilhar
connosco.
Por fim, acabámos todos a cantar.
Primeiro cantigas do Zeca Afonso, em homenagem pelos 26 anos da sua morte (como
o tempo passa depressa, apesar das saudades!). Depois, cantigas da nossa terra. Cantámos a Senhora da Orada, quadras que dantes se começavam a ouvir
ainda o dia da romaria vinha longe, mas que infelizmente agora já raramente se
cantam.
Foram quase três horas de boa
disposição e convívio entre todos os participantes. Foram também o relembrar e
reviver de muitas memórias que marcaram a nossa infância e juventude.
Penso que a organização está de
parabéns. O Presidente João Prata e principalmente a Cila, a Ana, a Catarina, o
Pedro Noco, o Zé Pasteleiro e todos os outros que ajudaram.
De louvar também a disponibilização,
por parte da família Hipólito Raposo, do espaço para a realização deste
encontro. Trata-se de uma casa da qual guardo muitas memórias, sobretudo do seu
jardim e da figura da governanta, a ti Antonha que andava sempre com as chaves
da despensa e da adega pregadas à cintura, numa tentativa de evitar a ida das
criadas à despensa. Coitada, acho que nem sempre o conseguia…
Uma palavra ainda para os “atores”
que ao longo da noite simularam as brigas habituais das tabernas.
Destaco sobretudo o papel do Zé
Taleta que entrava e saía com o seu ar gingão, depois de ter emborcado mais um
copo. O que é que o avô dele, que elogiou de forma tão generosa o padre há anos por fazer sozinho a Semana Santa, não diria sobre este seu neto que corre que nem uma lebre, dança como poucos, toca os pratos de forma magistral e agora ainda é
ator! É uma honra tê-lo como primo!
Pelos comentários que fui ouvindo das pessoas que estavam
perto de mim, este evento tocou bastante nas memórias de todos os presentes. A
mim, comoveu-me muito!
E agora só resta a pergunta: para quando o
próximo encontro? Ficamos à espera!
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
A nossa Quaresma na USALBI
Ontem, 21 de fevereiro, um grupo de vicentinos trouxe à aula do Professor Américo André, na Universidade Sénior, algumas das nossas tradições quaresmais.
Foi em Castelo Branco, no Auditório do Biblioteca Municipal. Aqui deixo algumas fotos, enviadas pela Ana Isabel Jerónimo Inês, a quem agradeço.
Foi em Castelo Branco, no Auditório do Biblioteca Municipal. Aqui deixo algumas fotos, enviadas pela Ana Isabel Jerónimo Inês, a quem agradeço.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
A nossa banda
As notícias da nova sede têm-me trazido à memória os ensaios
da nossa banda quando ainda se faziam numa sala ao lado da porta principal da
Igreja da Misericórdia e o maestro era o primo Joaquim dos Santos, como lhe
chamávamos em família.
Lembro-me bem dele, com a sua batuta cujo funcionamento me
maravilhava, mas constituía um mistério para mim, quase como se fosse a varinha
mágica dos contos de fadas.
Lembro-me bem dos acordes que saíam daquela sala de ensaios
e que eram uma antecipação do calendário religioso ou das festas que iam
acontecer a seguir: a Semana Santa, a Senhora da Orada, as Festa do Verão, um
ou outro concerto na praça, e pouco mais.
De todo o reportório, a música que mais me impressionava,
pelo peso dramático que tinha, era a da Procissão do Enterro. Através dela, nós
fazíamos a penitência de todos os pecados que tínhamos (pelo que nos faziam
crer, já eram muitos, mesmo quando ainda éramos crianças…).
Estive muito tempo sem assistir a alguma atuação da banda.
Há três ou quatro anos, na festa do Casal, tive oportunidade de assistir a um
concerto que me deixou maravilhada e emocionada por vários motivos: a maior
parte dos elementos que constituíam a banda eram muito jovens, mas estavam
perfeitamente integrados com outros um pouco mais velhos; o reportório era muito
variado, abarcando temas de música popular, música moderna, adaptação de clássicos,
etc; o maestro era um rapaz muito jovem, com aspecto muito moderno e que contagiava
todos os outros elementos da banda e do público com a sua alegria. Mas o que
mais me emocionou foi ver o Zé Taleta a tocar os pratos, num lugar que foi
durante muitos anos do seu avô (que era também o meu) e que durante alguns
segundos me fez imaginar que era ainda ele que ali estava, com o seu ar altivo,
olhos lindos e marotos, mas sobretudo transmitindo através da expressão
corporal, o enorme prazer que a música lhe dava.
Entretanto algumas coisas foram mudando: os maestros, os
músicos, o reportório, mas tem-se mantido o grande mobilizador: o Comissário
João Barroso. O seu trabalho não deve ser fácil, mas ele tem mantido com grande
entusiasmo esta instituição que é um elemento importante do nosso património e
faz parte do imaginário de todos nós.
Força e que a nova sede seja um incentivo para voos ainda
mais altos!
M.L. Ferreira
Banda Filarmónica Vicentina, 2009
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Sede da banda
A estrutura do edifício está pronta. A telha é castanho escuro a intervalar com castanho avermelhado, a imitar o telhado das casas velhas que ali existiam. Em Julho, aquando da festa da banda, a sede estará concluída.
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