José Teodoro Prata
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
segunda-feira, 17 de julho de 2017
A nossa vida
(…)
Sendo assim, vou continuar com os meus escritos para ir enchendo papel, o papel
só tem valor se tiver palavras, frases, desenhos, rabiscos…se não tiver nada,
não passa de uma folha em branco ou de outra cor. Não é sobre este assunto que
quero escrevinhar algumas palavras.
Vamos
a isto.
A vida de um ser humano tem uma duração
limitadíssima, o máximo cem anos mais dez, menos dez. A maior parte das pessoas
quando ultrapassam os noventa têm uma saúde muito frágil, estão limitadíssimos,
os reflexos já não são o que eram, passam as horas à espera…
É a regra, embora haja pessoas com uma
memória invejável, ainda se movimentam razoavelmente bem; não é a regra.
A qualidade de vida não acompanhou a longevidade,
os lares são um bom exemplo daquilo que estou a dizer. As funcionárias de manhã
levantam os velhinhos, muitos deles são transportados em cadeiras de rodas,
entram na sala, sentam-nos no sofá e ali ficam até à hora do pequeno-almoço.
Voltam novamente para o sofá até ao lanche e
assim sucessivamente. Findo o jantar, cama.
Quem se movimenta ainda se levanta e dá uma
volta pelo corredor, quem não se mexe…
Coitados deles, tanto lutaram, de repente
ficam incapacitados, à merce dos semelhantes.
O destino tem destas coisas, longevidade
igual a limitação. As pessoas acomodam-se, não têm outro remédio, os filhos
trabalham, vivem longe.
Precisam de muito carinho, muita atenção e
amor. Quantos há que foram “despejados” nos lares pelos familiares e nunca mais
lhes ligam, não querem saber deles, esqueceram-se depressa dos trabalhos, das
canseiras, dos sacrifícios que passaram para os criarem.
Um dia
terão a recompensa, alguém lhes fará o mesmo.
A vida
é feita de bons e maus momentos, é uma labuta diária e constante; impostos,
obrigações, problemas de toda a ordem, de vez em quando surge um dia de
alegria, de festa
O nascimento de um filho, o baptizado, a
licenciatura, uma promoção no trabalho, um aumentozito… coisa pouca em oposição
aos maus momentos.
Invejas, doenças, incompreensões, ódios, compromissos
assumidos… A vida é uma chatice, mesmo assim, julgo que a maioria gosta de cá
andar. De vez em quando há alguém…põe fim à vida, porquê? Só ele sabia. Um
desgosto, uma dívida que não conseguiu controlar… Quem termina bruscamente com
a existência lá terá as suas razões, não o podemos condenar, que tenha uma vida
mais favorável na outra…
Se houver alguém que consiga adivinhar
através de sinais o pensamento da pessoa com pensamentos suicidas que o
acompanhe e o demova a fazer tão tresloucado ato.
Tudo se remedeia desde que haja compreensão
entre os homens.
Uma casa centenária, velhinha, pode ser
reconstruida e durar outro tanto tempo, mas também pode ser destruída num
instante e nunca mais ninguém a torna a ver.
Com o suicida acontece a mesma coisa, se
alguém o amparar, salva-se, se ninguém lhe deitar a mão, num instante termina…
Todos sabemos que a vida são dois dias, é tão
frágil a vida; vela acesa exposta numa corrente de ar, uma aragem... A vida começa
num choro, tal como a fogueira começa por fumegar, depois vem o brasido, para
finalmente terminar em cinza.
Fiquem bem!
J.M.S
domingo, 16 de julho de 2017
sábado, 15 de julho de 2017
Balcaria
Olival com rega gota a gota, no Balcaria.
Atrás da casa e na área que se vê acima da estrada já há medronheiros.
Ao fundo, na raiz da serra, a casa do ermitão, da Orada.
Os nossos mais velhos sempre disseram Balcaria.
O Zé Barroso escreve Vale de Caria, como seria originariamente.
Mas eu volto ao Balcaria, até porque nos documentos dos séculos XVIII e XIX aprendi que a nossa região é nortenha, neste aspeto (trocava o v pelo b em inúmeras palavras).
José Teodoro Prata
Nota: O texto foi alterado após o comentário do Zé Barroso.
quinta-feira, 13 de julho de 2017
O primeiro Moreira?
O Inácio (Ignacio), batizado a 30 de dezembro de 1824, era filho de José Moreira, da Aldeia das Dez,
e Rosa Luísa, de São Vicente da Beira.
O avô paterno também se chamava José Moreira e era igualmente da Aldeia das Dez, Oliveira do Hospital.
É possível que os muitos Moreira de SVB sejam descendentes deste José Moreira da Aldeia das Dez.
Festa da castanha, Aldeia das Dez, 2011
Uma aldeia risonha e encantadora, sobranceira ao rio Alvôco. Toda ela parece um demorado miradouro, com vista privilegiada para as serras envolventes.
(http://aldeiasdoxisto.pt/aldeia/aldeia-das-dez)
A lenda da Aldeia das Dez tem origem na Reconquista da península Ibérica e está ligada ao actual nome da aldeia. Segundo a lenda, durante a Reconquista cristã dez mulheres terão encontrado um tesouro numa caverna situada na encosta do Monte do Colcurinho. De acordo com a tradição oral e alguns documentos que sobreviveram, esse tesouro possuía um valor que ultrapassa o material. Estas mulheres ter-se-ão apercebido da sua importância e, num pacto que persiste até hoje, terão separado entre elas as peças que o compunham e passando-as de geração em geração, mantendo até hoje por desvendar o segredo que encerram. Quanto ao tesouro, crê-se que dele façam parte moedas Antonini com inscrições cifradas, sendo que uma destas encontrar-se-á cravada na moldura de um quadro que narra esta lenda. Deste quadro pouco mais se sabe, além de ter ressurgido em meados do século XX num antiquário de Oliveira do Hospital, para novamente desaparecer. Terá sido pintado por uma das descendentes das dez mulheres e crê-se que retratando a lenda poderá oferecer uma chave para o seu segredo.
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Aldeia_das_Dez)
José Teodoro Prata
segunda-feira, 10 de julho de 2017
Vila-poema
VILA DA MEIA SERRA
Vagas verde-escuras dos
pinheirais,
Mar ameno de agulhas
fremente,
Levantado pela aragem
da Gardunha,
Meu olhar de menino,
Desfazendo-se a poente,
Onde, ao cair do dia,
O sol de ouro metálico
se punha.
Vale das encostas da
serra,
Em que fraldejam casas,
Assentes no granito
rijo e puro,
Casario a estender-se
pela terra,
Telhados vermelhos,
Paredes brancas de cal
e pedra alva,
Mescladas de sombras do
xisto escuro.
Do
ventre da guardiã granítica,
Nasceste quase na raia de Espanha,
Montes
por onde lutou o bravo lusitano,
Do
primeiro e do segundo reis, vila mítica,
Que
os ares gelados da estremenha,
Fustigam,
danados, no inverno,
Como
nos agrediu o soberbo castelhano.
Os olivais também
ondeiam pelas hortas,
Revirando as folhas no
gris dos dias de novembro,
Em maio exibes o imenso
amarelo das giestas,
Em janeiro, o branco da
neve e o negro das azeitonas,
No verão, as cerejas
rubras,
E os cachos de uvas
roxas em setembro,
Como bandeirinhas na praça pelas
festas.
Vila robusta, feita de pedra, até
à alma,
A ribeira rega-te, no verão, os
lameirais viçosos,
Enquanto no verde dos cômoros do
caminho,
Esvoaçam folhas, ao de leve, em
tarde calma,
Como o melro roça a asa nos olmos
frondosos,
Onde, furtivo, vai dar de comer
aos filhos,
No aconchego do arbusto em que
fez o ninho.
Terra de séculos, dos tempos idos
da história,
De muitíssimas gentes e grandes
eventos de outrora,
Mas também de desgraças e de
concelhos perdidos.
Destes, quero esquecer-me e
guardar, somente, na memória,
Os júbilos e contentamentos
antigos, as festas e romarias,
Porque as coisas vis e a má
fortuna, essas, lancei-as fora,
Como se tiram da lembrança os
maus instantes e se deixam esquecidos.
Joaquim Benedito
sábado, 8 de julho de 2017
D. Sancho I
Os
sinos do mosteiro de Santa Cruz dobram, dentro do templo encontra-se uma urna que
contém o cadáver do rei Sancho I de Portugal, colocada em cima de uma essa
ricamente ornada, ladeada por seis tocheiros, três de cada lado.
Frades agostinianos com seus hábitos negros
cantam em cantochão salmos fúnebres, imploram ao Senhor o perdão dos seus
pecados e receba sua alma na morada eterna do Céu
O largo fronteiro ao mosteiro está apinhado
de gente que reza e chora a morte do bom rei. Sofria de uma doença terrível que
grassava em Portugal e em toda a Europa, a lepra.
Não
poupava ninguém, pobre ou rico.
D. Sancho I morreu desse terrível mal, a
igreja considerava castigo de Deus.
Findas as exéquias fúnebres, o cadáver foi
colocada num mausoléu, perto do túmulo de seu pai D. Afonso Henriques.
Tinha 56 anos quando naquele dia 26 de Março
do ano 1211 entregou a alma ao Criador.
A vida quotidiana decorria com normalidade em
Sanctus Vincencii; os servos trabalhavam para os senhores, donos das melhores
terras, alguns tinham que fazer corveio, que consistia em trabalhar
gratuitamente um ou dois dias da semana para o senhor dono da terra, os que
moravam nas Vinhas, na Fonte da Portela, eram livres de qualquer encargo
perante o senhor feudal, dai haver alguns renitentes…
Alguns dias após a morte do rei, um arauto
entrou em Sanctus Vincencci, contactou os Homens Bons, estes, imediatamente mandaram
tocar o sino da igreja.
Mensageiro anunciou a todos os moradores o
trágico desfecho.
O
povo chorou amargamente a morte de D. Sancho, prior rezou ofícios divinos pela
alma de sua majestade.
Rei morto, rei posto; D. Afonso II seu filho,
sucedeu-lhe no trono.
D. Sancho nasceu no dia 11 de Novembro do ano
1154, ”dia de São Martinho”; por esse motivo deram-lhe o nome Martinho.
Henrique, seu irmão, “morreu criança”; por
morte deste, o herdeiro da coroa passou a ser Martinho. Os nobres achavam que
este nome não era o mais apropriado, passou a chamar-se Sancho Afonso.
Casou D. Sancho I com Dª Dulce de Aragão no
ano 1174 de quem teve dez filhos: D. Afonso; D. Pedro; D. Fernando; D.
Henrique; D. Raimundo; D.ª Berengária, que foi rainha da Dinamarca; D.ª Branca
e as beatas Teresa; Mafalda e Sancha.
Para além dos filhos legítimos D. Sancho teve
alguns filhos naturais: D. Martim Sanches e D.ª Urraca Sanches; filhos de D.ª
Maria Aires de Fornelos.
De D.ª Maria Pais Ribeira teve seis filhos: D.
Rodrigo; D. Gil; D. Nuno; D. Maior; D.ª Constança; D.ª Teresa.
O campo, nomeadamente as Vinhas, Fonte da
Portela, eram lugares onde ainda moravam muitas pessoas; certo dia, ouvem-se
gritos aflitivos, vinham do lado da Oles.
Fujam… vêm aí os sarracenos; matam e queimam
tudo por onde passam!
Pedro Afonso homem possante, valente,
imediatamente reúne malados, peões, cavaleiros vilãos…armados de chuços, vão ao
encontro dos sarracenos; estes vendo que não conseguiam vencer os habitantes
das Vinhas e Fonte da Portela fugiram em direcção à campina dilatada de Vila
Franca da Cardosa.
D. Afonso I já tinha atribuído nome à nova povoação
que se encontrava mais acima no sopé da serra, as brenhas, os ursos e outros
animais por onde passavam devastavam… eram como o inimigo quando fazia algum
fossado.
Os moradores aos poucos foram deixando o
campo, apesar de as terras serem mais fáceis de arrotear, as formigas e a falta
de água, obrigava-os a deixarem suas cabanas.
Os vizinhos, à medida que iam chegando a
Sactus Vincencii, eram logo ajudados pelos que já lá moravam, todos juntos
levantavam paredes e nascia mais uma casa; as mulheres pariam, o povo rezava na
pequena igreja, até que um dia o rei D. Sancho querendo povoar o interior do
reino convidou gente da Flandres, da Borgonha… a viverem em Portugal.
Sanctus Vincencii, já era uma terra
importante, o rei sempre preocupado com a governança, defendendo o comércio e
fomentando a criação de riqueza atribui forais a muitas terras das beiras.
Covilhã, 1186; Viseu, 1187; São Vicente 1195;
Guarda 1199…
D. Sancho I não se preocupou somente com a
criação de concelhos atribuindo forais, também era meticuloso na administração
dos dinheiros públicos, deixou muitos morabitinos nas arcas.
Naquele dia pelas ruas da vila ouviam-se
pandeiros, guizos, castanholas; eram dois jograis que anunciavam um folguedo no
terreiro, vinham acompanhados por uma amásia e uma soldadeira.
Saltério, viola de arco e outros instrumentos
eram tocados pelos jograis, o povo acorreu em massa, as mulheres dançavam
enquanto uma tocava o pandeiro e a outra, castanholas...
O largo estava todo iluminado com archotes e
banhado pela lua cheia; compareceram todos os moradores, que assistiram ao
espectáculo com alegria.
A do mui bom parecer
mandou lo adufe tanger
louçana, d`amores moir`eu
A hora ia adiantada, mas ainda houve tempo
para ouvirem um jogral declamar uma trova da autoria do rei D. Sancho I; foi um
grande protector de trovadores e jograis.
Vamos
lá então:
Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado
Por meu amigo, que hei alongado!
Muito me tarda
O meu amigo na Guarda!
Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
Por meu amigo, que tarda e nem vejo!
Muito me tarda!
O meu amigo na Guarda!
Quando
os jograis deram por terminada a função, todos foram para a deita satisfeitos.
Em nome da Santa e indivisa Trindade, Pai,
Filho; Espírito Santo, ámen. Eu, rei Afonso, filho do rei Sancho, juntamente
com minha mãe rainha Dulce, e ao mesmo tempo com G. Martins, prior de São Jorge
e todo o seu convento e com frei João de Albergaria de Poiares, queremos
restaurar e povoar o lugar de São Vicente, damos e concedemos o foro e costumes
da cidade de Évora a todos, tanto presentes como futuros que lá quiserem
habitar…
(…) Se alguém quiser rasgar este facto nosso
seja amaldiçoado de Deus.
Concedemos
a todo o cristão, embora servo, desde que habite durante um ano em São Vicente,
seja livre e ingénuo, ele e toda a sua progénie…
Resumindo: uma vila do tempo da fundação de
Portugal, e nunca houve ninguém que tenha atribuído o nome de uma rua, largo ou
praça ao rei Sancho I ou erguer-lhe um busto. Nunca é tarde para corrigir…
Fiquem
bem!
Notas:
Essa: Estrado onde se coloca o caixão com o cadáver durante as
cerimónias fúnebres
Cantochão: Canto da igreja católica, canto gregoriano
Malado: Pessoa sujeita a encargos e serviços dos senhores feudais
Peão: Soldado de Infantaria; plebeu
Jogral: Músico
Amásia: Amante
Soldadeira: Mulher que serve por soldada, criada
Saltério: Instrumento musical de cordas
Louçana: Louçã
Pesquisa:
História de Portugal,
Fortunato de Almeida, Promoclube
Fotografia D. Sancho I,
História de Portugal, Fortunato de Almeida, Promoclube
História da Literatura
Portuguesa Ilustrada, Albino Forjaz de Sampaio, Livrarias Aillaud e Bertrand
Cantiga de amigo, (Ai eu,
coitada…) História da Literatura Portuguesa Ilustrada, D. Carolina Michaelis de
Vasconcelos
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