quarta-feira, 22 de abril de 2015

LUGARES AONDE SE TORNA – 3


O homem que mordeu o cão

Todos conhecemos o homem que mordeu o cão; ou julgamos conhecer. Liga-se a telefonia de manhã e lá está ele – como se dormisse na casa de cada um.
Agora que qualquer filho de Deus pode entrevistar um homem na Lua, como se ele estivesse na Fonte Ferreira, a filharada acredita que o homem da Rádio Comercial é que inventou o conceito com que se veste. Já se verá que não foi.
«É uma forma de dizer, um supônhamos», na expressão do senhor Baldaque, uma vez em que se falava do Pelourinho, em frente da loja do Joaquim Boas Noites. Instado, trocou a coisa por miúdos – «se o cão do Pinura ferrasse as canelas da menina Emília, isso não era notícia, era um fait divers, quando muito, paroquial; mas, se o doutor Alves tivesse mordido o cão do Pinura ou aqui do Tónio Fiambre, isso, sim, era uma notícia a sério, e haviam de ver o nome da nossa nos jornais e televisões de todo o mundo!»
Era um homem enxuto ao modo de outros tempos, opinioso, um metro-e-dez sempre cheio de razão – mais verbo que obra, tinha, contudo, a clarividência dos visionários. Nunca soube o nome dele ao certo. Declarava uma grande queda pela América, para onde ameaçava emigrar a qualquer momento – «um dia, se me chateiam, ala moço, América com ele, que é a terra do futuro». Esse dia nunca chegou. Sempre de fato castanho, com riscas cremes na vertical, colete no Verão, em lugar do casaco, esse homem, Sebastião ou Viriato, não sei, foi para mim, sempre, o senhor Baldaque.
Entre nós, no grupo, tudo, gente simples, quando se fala no homem que mordeu o cão, é no senhor Baldaque que pensamos. Não é nesse da rádio, nem mesmo no eminente bispo que o doutor Mário de Carvalho, advogado não praticante, pôs em livro há um par de anos. Eu explico.
Mário de Carvalho, com mais que idade para ter uma ranchada de netos, é um conhecido brincalhão, avezado a amassar histórias e a conceber personagens e situações menos canónicas. Uma dessas histórias, vinda dos anos de 1990, mantendo as qualidades que distinguem o cavalheiro – a graça, sobretudo, nas situações que cria e na maneira de contar - reproduz, digamos, em boa prosa, a tese baldaquiana. No caso, a jornalista Eduarda, e uma multidão de jornalistas, investigam, em Grudemil, que é como quem diz Braga, o episódio do bispo local que mordeu um cão. Os pormenores estão lá, na novela Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, que se lê com uma cara de sorriso permanente, às vezes exaltada em gostosa gargalhada, um texto indicado, digamos, para todos os dias – no dizer do próprio, uma verdadeira «crónica jocosa da vida portuguesa dos nossos dias».

O senhor Baldaque comentava o Pelourinho muitas vezes. «A nossa terra, cachopos, merecia mais». As histórias que ele contava, o entusiasmo com que o fazia – aquilo era homem, se era assim, a falar, o que seria a escrever! Tivéssemos nós percebido, por estas bandas, a importância da comunicação social, e teríamos dado ao mundo o jornalista que nos faltou.
Não raro, entravam com ele, a provocá-lo, sempre a propósito da história do cão, como a tirar dúvidas sobre a complexidade do conceito: «então, e se o doutor Alves, em vez de morder o cão, tivesse mordido a menina Emília, ou até uma cachopa mais nova, também era notícia?», perguntavam. «Tu queres mangar, companheiro!», tornava-lhes ele, invariavelmente, sem dizer mais.
Até um dia. Confrontado por uns tantos, ali à beira da praça, sobre a mesma questão, foi ouvi-lo – um autêntico visionário: «Então eu explico: podia ser o doutor Alves, mas até era melhor se fosse o bispo, irmão do padre Tomás. No dia a seguir, eu até já estou a ver, era São Vicente por todo o lado, nas televisões e nos jornais, até da América. Ah, raios, com a notícia do bispo que mordeu o cão, era garantido que voltava para cá o concelho, e havia de ser gente e mais gente para aí, da comunicação, turistas e isso». Já em jeito de retirar-se, diz só para eu ouvir, piscando-me o olho: «Isto é como deitar pérolas a porcos – um homem mata-se para levar o nome da nossa terra a todo o lado; mas, dando com gente desta, parente, lá se vai o concelho outra vez».

José Miguel Teodoro

3 comentários:

Anônimo disse...

Isto sabe a uma talhada de toucinho entremeado cozido e comido em cima de um prato de feijão grande. Gostoso como o catano e ainda por cima ao nível do Mário de Carvalho. Espetáculo...
FB

Anônimo disse...

Não sei se é da idade ou de qualquer coisa que temos entranhado, mas estes regressos ao passado são inevitáveis, por mais que queiramos escrever sobre o presente ou o futuro.
Este mimo do José Miguel Teodoro é um bom exemplo disso.
Para além de recordar muita gente de que todos nos lembramos, lembra-nos que, apesar da interioridade que nos limita em tantas coisas, nunca fomos menos que os outros e tivemos sempre a capacidade de sonhar para além das barreiras naturais e outras de toda a ordem. É o caso do Senhor Baldaque, mesmo que nunca tenha chegado à América.
Quanto ao toucinho entremeado (uma boa imagem para qualificar este texto), lembro-me muitas vezes do cheiro e do gosto dele, mas é a derreter nas brasas do lume e a pingar em cima duma fatia de pão…

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Está bem amanhado. Gosto especialmente das expressões "parente" e "metro-e-dez". São do meu mundo.
Como é que vocês chegaram ao toucinho entremeado? E logo cada um de sua maneira! A do Chico também é mais do meu mundo...