segunda-feira, 15 de junho de 2026

Conta-me histórias da guerra colonial


Voltámos à Biblioteca Hipólito Raposo, para mais um Conta-me histórias, desta vez sobre a guerra colonial.

O livro Poesia Simples, de José Augusto Alves, conta a história do Tó, soldado paraquedista que foi voluntário para a Guiné e sofreu um ataque. Veio para o hospital militar, em Lisboa, com múltiplas queimaduras e só chegou à terra na sexta-feira santa do ano seguinte, quando desciam o Cristo da cruz, no Calvário. «Foi um enorme guerreiro / Também andou pelos matos; / Tantos soldados solteiros / Que da guerra andavam fartos.» Um dia, num jantar de antigos combatentes, disse ao ex-comandante militar da Guiné, também presente: «Quando morrer, eu fico a substituí-lo!» Ambos se chamavam António e aos dois faltava um olho.

O Rui esteve num ponto crítico da Guiné, próximo da outra Guiné que fora francesa e já estava independente. O sítio era tão perigoso que até foi para lá mandado, como castigo, um soldado que matara um sargento noutra região. Era motorista e teve de ir para a guerra, porque vários motoristas madeirenses foram despedir-se à ilha e apanharam o avião para os Estados Unidos. Ouvia o Amílcar Cabral, às 7 da tarde, desde Conacri. Quando partiu, não percebia nada de política, mas era impossível não concordar com Cabral que defendia um governo misto de portugueses e africanos. Na altura do seu assassinato, houve uma companhia que foi massacrada e os sobreviventes dispersaram. A um deles, o João, também vicentino, encontrou-o muito mal, todo amarelo, com hepatite. Levou-o para o quartel e tratou dele. Depois pediu ao comandante e “adotaram-no”. O Rui foi protegido pela mãe de Jesus, pois escapou ileso de um ataque no dia 13 de maio. Mas houve na guerra tantos mortos por se relaxarem as regras de segurança!

O Jorge já fora para França, mas regressou a pedido dos pais, pois, se não viesse fazer a tropa, não poderia vir visitar a família. Ele passou melhor, também na Guiné, pois o seu quartel só sofreu um ataque. Filho do barbeiro da terra, cortava o cabelo aos outros soldados, nas horas vagas.

O Cassiano esteve na retaguarda, desde os 16 anos, como funcionário do hospital militar, em Lisboa, onde chegavam os feridos e os mortos. Depois do 25 de Abril foi para Luanda, como militar, a receber e inventariar os equipamentos médico-cirúrgicos trazidos pelas unidades que regressavam do mato, com destino à metrópole.

Tantos traumas!


José Teodoro Prata

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Conta-me histórias, 8

 Nesta oitava sessão, iremos relembrar histórias antigas contadas de boca em boca, pelos nossos antepassados, e antigos emigrantes e ex-combatentes da guerra colonial partilharão alguns episódios das suas vidas.

José Teodoro Prata

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ninho de zangão

Um dia, no Ribeiro Dom Bento, vi desaparecer um inseto do tamanho e forma do zangão (não o macho da abelha), mas todo preto, por uma fisga entre duas placas metálicas.

Duas semanas depois, precisei de mover as placas e deparei-me com o ninho que a foto mostra.
Na altura, pensei que a parte amarela eram ovos ali colocados para se alimentarem as lagartas que fossem nascendo dos ovos postos pelo tal inseto (são já visíveis algumas).
Dias depois voltei ao sítio, preocupado com as consequências da minha intrusão. Já havia dezenas de lagartas e concluí que a parte amarela é pólen ali acumulado pela mãe zangão, para alimentar os filhos (as lagartas da abelha tambérm se alimentam de pólen).


José Teodoro Prata

sábado, 30 de maio de 2026

A flor da esteva

 Era no tempo da inocência, em que as histórias ouvidas ao serão preenchiam o nosso imaginário e nos resolviam o conflito com a realidade. 

Uma das que mais me maravilhava, contada por alturas da Páscoa, (início da primavera) era sobre a flor da esteva. 

 Resumidamente, era mais ou menos assim:

O caminho por onde Jesus subiu ao Calvário era todo rodeado de estevas com flores brancas. Mas quando Jesus passava, os espinhos que lhe cravaram na cabeça eram tão fundos que faziam com que o sangue que lhe jorrava da cabeça salpicasse tudo o que estava à roda e fosse também cair sobre as flores das estevas. Ao ver o filho em tal sofrimento, Nossa Senhora chorava tantas lágrimas de sangue, que caíram também sobre algumas flores. 

Isto justifica que encontremos estevas cujas flores tenham apenas cinco pétalas com manchas de sangue (aquelas em que caiu o sangue de Jesus) e outras que tenham seis (as que apanharam também as lágrimas de Nossa Senhora). 

Do cheiro das estevas, só a linguagem da memória, feita poesia:

«Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijeiras, do forno, da forja – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficavam, depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma das estevas e do feno.»

(Eugénio de Andrade)

MLFerreira

(O escritor Rentes de Carvalho, natural de uma aldeia próximo de Torre de Moncorvo, mas a viver na Holanda, escreveu num dos seus livros que levada um ramo de estevas para pendurar na sua cozinha lá da longínqua Amsterdão.)

José Teodoro Prata

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Fim do Ciclo Pascal

 

A festa da Páscoa ou da Aleluia terminou ontem, dia de Pentecostes, em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a consequente criação da Igreja Cristã.

Ontem tiveram lugar as últimas romarias que integram o ciclo Pascal: Senhora da Póvoa (Vale da Senhora da Póvoa), São Lourenço (Palvarinho) e Senhora da Orada (São Vicente da Beira). Antes, realizaram-se as festas da Senhora dos Altos Céus (Lousa), Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova), Senhora da Mércoles (Castelo Branco), Santa Bárbara (Casal da Fraga – SVB; no passado entre o Sobral do Campo e São Vicente), São Tiago (Partida – SVB)…

Na década de 70 do século passado, em São Vicente da Beira, era nas datas das romarias referidas que o sr.º Vigário visitava todas as casas, dando as Boas Festas.

Nota: A foto mostra a estrada romana que ainda hoje existe junto à ermida da Senhora da Orada, no interior da serra da Gardunha.

José Teodoro Prata

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Como se chama?

 

Quem amanhã for à romaria da Senhora da Orada pelo caminho que vem do Caldeira para as Quintas, vai avistá-la na zona entre o pinheiro manso e o cruzamento do Cabeço do Pisco. Nalguns locais é mesmo a única presença viva, no meio de caules calcinados que ficaram do fogo do ano passado.
Não sei o seu nome, mas tem tanto frágil como de delicadeza e beleza.

José Teodoro Prata

Nota: Chama-se coruba-brava, segundo informação da Sara Varanda postada no facebook.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Giesta-do-monte

 

Quem no domingo for à romaria da Senhora da Orada, a pé, pelo caminho que vai do Cimo de Vila para as Quintas, ainda pode ver a giesta-do-monte (Polygala microphylla) florida, ali entre o Pinheiro e o Carvalhal Redondo, à direita de quem sobe.

A floração prolonga-se por tanto tempo que a flor de roxo escuro começa a ficar lilás claro. Floresce sempre por alturas da Páscoa, pelo que a minha mãe, que não sabia o nome dela, chamava-lhe Páscoas. A foto foi tirada pela minha irmã São, este ano.

Há alguns anos, trouxe a planta à Escola Agrária de Castelo Branco. Informaram-me do nome e que a planta abunda sobretudo no centro litoral, sempre virada ao mar, como este lugar onde a podemos admirar todos os anos.

Trata-se de uma planta rasteira e as hastes floridas raramente ultrapassam um palmo de altura. É muito resistente, pois naquele local já sobreviveu a três fogos, recentemente (1986, 1917 e 2025).

José Teodoro Prata

terça-feira, 19 de maio de 2026

Enxabarda 6 (último)

 Na rua, cruzamo-nos com alguém que não nos conhece. A pergunta surge imediatamente, sempre a mesma:

Sois filhas de quem?

Os nomes das nossas mães levam ao nome da nossa avó, ao nome dos nossos tios e, quase sempre, aos nomes dos nossos bisavós.

Ainda somos primos.

Ou então:

A tua avó ajudou-me muito.

As tuas tias ainda se devem lembrar.

Antigamente éramos vizinhos.

E segue-se uma história de superação, solidariedade, entreajuda, morte, qualquer coisa que não é para brincar, como relatos de meninos que não tinham o que comer e que só se salvaram por terem sido amamentados por vizinhas.

Éramos família.

Somos família.

Queremos-vos como queremos aos nossos.

A pergunta sois filha de quem? não é, pois, uma pergunta qualquer. Liga-nos diretamente a quem passa. E quem passa sabe haver maneira de nos ligarmos todos.

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)


José Teodoro Prata

domingo, 17 de maio de 2026

Enxabarda 5

«Pergunto à minha mãe e às minhas tias se pobreza era a palavra certa para descrever a vida da aldeia quando eram crianças. Quase tudo aquilo de que se lembram melhor – ou que decidiram guardar na memória – tem a ver com uma ideia de comunidade e entreajuda. Só que eu insisto na pergunta: mas como é que viviam?

Sementes, fermento, fogo. Tudo se partilhava e trocava, não havia desperdício.

O fogo passava de casa em casa através de uma pinha: A vizinha já tem lume?

Caso fossem poucas, as sementes pediam-se de porta em porta: Maria, tens aí um todo-nadinha de sementes de nabo para acrescentar a este todo-nadinha que trago aqui? uma vizinha perguntou à minha avó.

Existiam várias categorias de pouco, várias formas de nada. Era possível haver um pouco menos do que pouco, um pouco menos do que nada.

O fermento passava de mão em mão, de masseira em masseira.

Da roupa de adulto fazia-se roupa de criança.

Das partes mais gastas do fundo das camisas costuravam-se as roupas dos bebés, para que fossem mais macias.

Dos trapos que sobravam teciam-se tapetes e mantas, para o frio, para amparar as azeitonas, para secar o milho.

Antes de serem lavados, os lençóis de cima passavam a lençóis de baixo, para poupar lavagens.

(…)

Trocavam-se cereais por loiças, azeite por ferramentas, tarefas por tarefas.

Partilhava-se a sorte quando chegava o azar (…). Vizinhos iam ao fundo das arcas buscar o que restava do milho para fazer farinha e papas; vizinhos chegavam com taças de sangue de porco para compensar a perda. [de alguém a quem se entornara o alguidar de sangue da matança do porco]

O meu milho é o teu milho,

o meu sangue é o vosso sangue.

Por bondade ou para noutra ocasião

o teu milho seja o meu milho,

o teu sangue o nosso sangue.»


Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 75 e 76)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Enxabarda 4

 «A água é negra. O fundo é de lascas de xisto, lascas que não magoam os pés, pedrinhas que não chegam a ser areia grossa. A película brilhante que separa o escuro do claro faz-nos pensar em óleo espesso, mas o som é bem mais líquido e fresco, mais limpo.

A superfície estremece ligeiramente com o movimento dos alfaiates: ao leve pousar das suas patas, um pequeno círculo, uma bolha que não chega a ser bolha, forma-se à volta de cada uma, e então deixamos de perceber. Porque às patas e aos seus reflexos juntam-se os pequenos círculos e seus reflexos e a imagem confunde-nos: não percebemos que animal é este, onde começa e acaba o seu corpo, quantas patas tem afinal. Para nos hipnotizar ainda mais, há esse modo extraterrestre de se deslocar, de um modo para o qual é difícil encontrar palavras, pois, na verdade, um alfaiate não caminha, não salta, não desliza, não voa, não nada, avança. Tem qualquer coisa de aranha, e não admira que este movimento aranhiço sobre o fundo tão escuro do Poço Escuro cause repulsa a alguns veraneantes menos habituados (…).

Os alfaiates estão sossegados mas, quando mergulhamos, tudo se quebra: a água, os reflexos, a paz dos alfaiates, o silêncio, o calor. A água é leve e fria, tão diferente da água salgada onde também mergulhamos nas férias. É uma água sem sabor, sem peso, sem mais nada, uma água-água, e talvez seja do frio, da escuridão ou desta leveza, mas até parece que conseguimos atravessá-la mais depressa. Chegar à superfície é ter a sensação de que renascemos.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 73 e 74)

terça-feira, 12 de maio de 2026

Enxabarda 3

«Como a chave estava sempre na porta, primos e vizinhos entravam pela casa adentro sem aviso e, se isso acontecia por volta do meio-dia, viam-nos passar ainda despenteadas, de pijama. Tantas horas de sono eram consideradas ali um costume exótico, um capricho que os outros tinham dificuldade em compreender. O sono era um tempo roubado as horas de trabalho à fresca, um desperdício (…).

(…) Havia esse pormenor de a chave estar na porta todo o dia. A primeira pessoa a acordar, normalmente a minha avó, colocava-a na fechadura do lado de fora; a última a deitar-se fazia o inverso. A chave só era retirada quando íamos à cidade mais próxima ou quando, por exemplo, decidíamos ir passar o dia à serra. Penso que não o fazíamos com medo de que a casa fosse assaltada, mas mais como um aviso, um sinal que dizia a quem passava: se a chave não está na porta é porque não está ninguém em casa. A bem dizer, a chave era sempre colocada debaixo do tapete da entrada, portanto, se fosse necessário, era possível entrar.

A casa da minha avó fica no largo da igreja e as pessoas entravam muito: antes da missa, depois da missa, a caminho das hortas ou quando iam aviar-se à loja que ficava mesmo em frente à nossa porta.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 69 e 70)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Gladíolos silvestres

 

Serra da Gardunha, Ribeiro Dom Bento, São Vicente da Beira

José Teodoro Prata

domingo, 10 de maio de 2026

Enxabarda 2

 «A minha avó nasceu no início de setembro de 1910, um mês antes da Implantação da República. Durante a sua infância, a gripe espanhola correu o país e chegou à sua aldeia. Conta-se que adoeceu e sobreviveu. Também sobreviveu a cinco partos sem qualquer assistência, ou melhor, seis, porque teve gémeas, um acontecimento que surpreendeu toda a gente. Quando a parteira se apercebeu da existência de outro bebé, pediu a um homem que fosse de bicicleta até à vila mais próxima para trazer um médico porque a situação da parturiente era grave. É bem provável que nesse dia (e nos que se seguiram) a minha avó tenha visto a morte aos pés da cama, como havia de lhe acontecer muitos anos mais tarde, quando já muito velha e doente, me disse: ela hoje andou por aí a rondar.

Pergunto-me se a casa em que viviam nessa altura teria escadas. E, se sim, como faria ela para descer ao piso térreo a saber das outras crianças. Pergunto-me também quem lhe terá trazido água, pão, uma canja. Quanto tempo terá vivido assim? Porque não permaneceu deitada até recuperar as forças? O que seria tão urgente que a obrigava a deslocar-se entre divisões? Pergunto-me também se a minha mãe e os meus tios a terão visto e em que circunstâncias. Porque o certo é que a história chegou até mim mais de sessenta anos depois de ter acontecido: uma mulher de gatas, uma mãe de gatas, a minha avó de gatas.»

Isabel Minhós Martins

Revista Mamute, n.º 1, segunda série, 2025 (pp. 68 e 69)


José Teodoro Prata

 

sábado, 9 de maio de 2026

Enxabarda 1

 A Enxabarda situa-se bem no coração da Gardunha. Pertence à freguesia do Castelejo e localiza-se no caminho para os cumes da serra.

Nunca lá fui, mas tenho por ela algum interesse e até nostalgia. A minha tetravó Bárbara Leitão, casada com Teodoro Matias dos Santos, descendia de um jovem vindo das terras de Viseu, que casou no Vale de Figueiras e cujo filho foi depois casar à Enxabarda e os seus descendentes foram passando a terra alheia até um ramo se fixar no Casal da Fraga.
Pela Enxabarda passava a Estrada Nova, entre a Foz do Giraldo e o Castelejo, um troço da estrada que ligava Abrantes a Almeida, durante as Invasões Francesas. Deu nome a uma emboscada do exército luso-britânico e dos populares da serra, que constituiu um dos piores pesadelos que os invasores sofreram em Portugal.
É da Enxabarda o Pe. Jorge Fernandes, com quem tive pouca ligação no Verbo Divino, mas adorava as suas crónicas no Contacto SVD, dos anos em que viveu em Roma e ali dirigiu uma residência religiosa. São da Enxabarda dois irmãos carpinteiros que fazem bons trabalhos em madeira nas casas das povoações da serra.
E é da Enxabarda a Isabel Minhós Martins, mais certamente os seus pais, cujos escritos encontrei na revista Mamute, n.º 1, segunda série, publicada pela Livros Zigurate (Lisboa, MMXXV). É uma “Revista de Não Ficção-Literária”, “Para não deixar morrer as nossas histórias”, projeto com o qual me identifico totalmente.
A autora conta histórias das férias da sua infância na Enxabarda, traçando um retrato fiel do que foram as nossas terras até um passado muito recente. Vou publicar alguns trechos, na sequência desta introdução. Este é o Enxabarda 1 e os textos serão identificados por Enxabarda 2, 3, 4…

José Teodoro Prata

terça-feira, 28 de abril de 2026

Mais cambalhões

 Na sequência da minha publicação "O nosso falar: cambalhões", o José Miguel Teodoro deu uma achega para ajudar a esclarecer o assunto. 

Consultou o velhinho Morais (1950), que o informou de que camalhões e cambalhões são sinónimos. É importante esta informação, pois ficamos a saber que outras regiões do país usam a mesma palavra que nós, não é uma especificidade nossa.

José Teodoro Prata

sábado, 25 de abril de 2026

Passarada

Ontem, ao passar no cruzamento do Cabeço do Pisco, não digo a hora, porque parece mal, saiu de um pinheiro uma ave enorme. Bateu as asas durante bastante tempo e depois planou até desaparecer no horizonte. Seria uma ave de rapina, mas de uma espécie de grande porte. Fiquei contente e lembrei-me do bando de corvos que por ali andavam antes das infestantes tomarem conta da nossa serra.

Hoje, na Antena 1, o José Candeias referiu o corvo Vicente numa aldeia da Beira Baixa. Para quem não saiba, nos últimos anos da década de 70, o Café "Cagarola" tinha um corvo chamado Vicente que dizia umas palavras.

José Teodoro Prata

sábado, 28 de março de 2026

O nosso falar: cambalhões

 Fiz a publicação abaixo apresentada no facebook, a qual motivou uma reflexão sobre a correção da palavra que consta do título, referida em comentário pelo nosso conterrâneo José Nicolau ("Essa cava era chamada cavar cambalhão, ainda cavei assim, deixar a terra direita é cava rasa.") 

A Berta Ramalhinho disse que era camalhões (mais tarde o Albano Mendes de Matos informou que na Região Saloia também se diz camalhões). Eu fui consultar a net e de facto é camalhões, vindo do castelhano caballón, palavra que significa cume em português. Eu penso que ao José Nicolau saiu aquilo que se diz e eu digo na nossa terra: cambalhões. De caballón e porque não de cambalhota?, movimento que damos à terra para a virar, muitas vezes até para soterrar a erva da parte superior. Tal como arresário (soalheiro), enxidros (baldios), também usamos cambalhões, de caballlón. São inúmeras as palavras de origem castelhana que nós usamos nesta região fronteiriça!

OS NOSSOS AVÓS ERAM CIENTISTAS – A OXIGENAÇÃO DA TERRA
Cresci a ver os meus pais e o meu avô Francisco a deixarem a terra em pequenos montes, durante a cava, semanas antes de se fazerem as sementeiras. Aquilo sempre me fez espécie, porque, imediatamente antes da sementeira, os montes eram desfeitos e a terra alisada. Quando comecei eu a preparar as terras, questionei a minha mãe sobre a necessidade de fazer os montes. Ela respondeu-me que era para a terra apanhar ar. Ao cavar, a terra de cima ia para baixo e a de baixo ficava ao ar. Depois, quando os montes se desfaziam, outra terra ficava a apanhar ar. E ao fazer os regos das sementeiras, nova terra ficaria a apanhar ar, ficando por baixo a terra já arejada.
Este mover de terras visa a oxigenação da terra. Ao contacto com o ar, o ferro existente na terra capta o oxigénio e depois, em contacto com as raízes, transmite-o às plantas. Sim, as plantas captam o oxigénio do ar, pelas folhas, e da terra, pelas raízes. Este saber popular chegou-nos pela prática ancestral da agricultura ou é fruto das revoluções agrícola e científica (que em Portugal ocorreram sobretudo no século XIX)? Neste caso, esse saber chegou a alguns agricultores mais esclarecidos, que por sua vez o transmitiram aos camponeses que para eles trabalhavam. Um deles, Francisco Tavares Proença (pai do fundador do Museu), grande político albicastrense do final do século XIX e inícios do século XX, o maior cacique entre a Gardunha e o Tejo (conhecido por soba da rua de São Sebastião, onde ainda existe o seu palacete), era grande produtor de batata e o seu entusiasmo por este novo cultivo terá influenciado a agricultura nesta região.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 19 de março de 2026

Milho-Rei

Gosto de broa. Tanto que, em tempos, achava estranho o desabafo de quem, como os nossos pais e muitas gerações de avós, não teve outro pão em criança: «Quero cá agora broa! Enchi a barriga dela em novo, que era o pão que havia, broa e centeio, que trigo só nas Festas.» Achava estranho porque me lembrava dela ainda a fumegar, aberta pelas mãos da minha avó, logo à saída do forno, regada com um fio de azeite. E era um regalo, nos dias em que passava a Ti Palmira, o Maiaca ou o Pinura, uma fatia de broa com uma sardinha assada a pingar por cima, comida nas escadas da Casa do Casal, entrada de tanta gente…

Não vão longe os tempos em que, fins de abril, princípios de maio, todos os lameiros à roda da Ribeira estavam prontos para a sementeira do milho. Era trabalho para toda a família e, se fosse preciso, podia sempre contar-se com a mão de algum vizinho. Depois da semente na terra, estando a Lua a favor, passado pouco tempo era um mar de verde por esses lameiros acima.

Durante meses não havia descanso: ora a arrelentar, a sachar, a mondar ou a regar. Durante o verão a água da ribeira era dividida por quem tinha direito a ela, seguindo tradições que vinham de longe, mas respeitadas como se fossem leis escritas. Havia quem tivesse que regar pela noite dentro, à luz da Lua ou de lanterna na mão (em tempos idos, o avistamento destas luzes alimentou o imaginário popular, que acreditava tratar-se de almas penadas a vaguear pelo mundo). Lá para finais de setembro o milho estava pronto a ser colhido. Nos anos bons, cada grão deitado à terra dava umas três maçarocas. Não haveria fome à mesa nem na manjedoura.

Naquele tempo, entre o Rabaçal, o Balcaria, a Senhora da Orada, o Ribeiro Dom Bento e as Quintas viviam para cima de dez famílias, algumas com muitos filhos. Quase toda a gente tinha terras suas, e quem não tinha arrendava-as ou tratava-as ao terço, como a Ti Maria Etelvina ou o Ti Luís Teodoro, terceiros do António Neto.

Era uma vida difícil e de muito trabalho para todos, desde cedo. As crianças vinham a pé para a escola, às vezes descalças e mal agasalhadas. O Chico Insa ainda fala duma manhã de aguaceiro em que nem a saca dobrada a fazer de carapuça lhe valeu, e, já todo numa sopa, abrigou-se num palheiro à espera que estiasse; depois, por mais que corresse, não se livrou de cinco reguadas em cada mão, tantas quantas os minutos que chegou atrasado à escola. À tarde, ficavam-lhe nos olhos os colegas que se demoravam na Praça a jogar às caricas e a deitar o pião, mas ele tinha sempre pressa em voltar a casa, onde as cabras, com fome, já o chamavam há muito. Os deveres fazia-os à noite, quando o sono e a luz mortiça do candeeiro já lhe baralhavam as letras e os números dentro da cabeça, o que lhe valia mais umas reguadas e a raposa no fim do ano.  

Os mais velhos trabalhavam de sol a sol o ano inteiro. Domingos, só para a obrigação da missa; quando muito, dois dedos de conversa à roda do andamento das sementeiras ou dos rebanhos, o tempo de beber um copo com os amigos. Só se perdia algum dia para ir ao mercado ou à feira do Fundão, onde se aviava o que era preciso e vendia o que houvesse. Com tanto trabalho, não sobrava tempo para grandes folguedos, mas em qualquer oportunidade que aparecesse tirava-se a barriga de misérias. Era assim por altura das descamisas, como lembra a Carmo:

«Antigamente as pessoas eram mais dadas e ajudavam-se umas às outras naquilo que podiam. Na altura de colher o milho, era só dizer:

 - Ó Ti Matias (é só um exemplo), amanhã vamos colher o milho, apareçam para a descamisa.

Naquele tempo havia poucas ocasiões para divertimentos, e as descamisas eram oportunidades que ninguém queria perder, principalmente os rapazes e as raparigas em idade de arranjar namoro. Quando se sabia duma, passava-se logo a palavra, e vinha até gente da Vila e do Casal da Fraga. 

No fim da ceia as pessoas iam aparecendo, as que tinham sido convidadas e outras só por terem ouvido dizer. À medida que chegavam, sentavam-se numa roda à volta do monte de milho colhido durante o dia. Não havia lugares marcados, mas toda a gente fazia por se sentar ao pé de alguém por quem tinha alguma preferência, muitas vezes amores escondidos. Arranjaram-se muitos casamentos assim.

Os serões eram sempre animados: os mais pequenos entretidos nas brincadeiras do costume, só interrompidas para ouvir as histórias de bruxas e almas penadas que o Ti João Candeias contava; as piadas e anedotas dos mais atrevidos punham toda a gente à gargalhada, e quando alguém começava:


As desfolhadas da aldeia

São cheias de vida e cor,

 

toda a gente ia atrás:

 

Até à luz da candeia

Se inspiram versos de amor.

 

Ai desfolhadas, lindas desfolhadas

Onde as raparigas vão todas lavadas,

Saem de casa, preparam-se bem,

Porque os seus amores lá irão também.

 

Ou então esta:

Ó malmequer mentiroso,

Quem te ensinou a mentir?

Tu dizes que me quer bem,

Quem de mim anda a fugir.

 

Desfolhei o malmequer

Num lindo jardim de Santarém,

Malmequer, bem me quer,

Muito longe está quem me quer bem.

 

Malmequer não é constante,

Malmequer muito varia,

Vinte folhas dizem morte,

Treze dizem alegria.

 

E a seguir vinham outras: “Milho verde”, “No cimo daquela serra”, “Água leva o regadinho”… Mas as mãos não paravam, entre a pressa de acabar o trabalho para começar a festa, e a cata de uma maçaroca vermelha.

Quando se ouvia gritar: «Milho-rei! Milho-rei!» calava-se tudo a ver quem tinha sido o felizardo ou a felizarda. Quem quer que fosse, levantava-se e corria a roda a dar um abraço a toda a gente. Para os mais novos era uma libertação, que podiam abraçar-se às claras, sem a censura daqueles tempos. Desconfiava-se mesmo que alguns rapazes já levavam de casa uma maçaroca vermelha, só para poderem abraçar as raparigas.

No fim do trabalho, os donos ofereciam qualquer coisa para comer e beber, quase sempre pão com queijo, passas, maçãs, aguardente para os homens e jeropiga para as mulheres. Na descamisa do Ti António Remualdo também havia sempre esquecidos, especialidade da Ti Maria da Luz.

Acabado o trabalho fazia-se um bailarico, quase sempre ao toque do realejo. Naquele tempo havia muitos rapazes que sabiam dançar e tocar bem, mas o Joaquim Feijão, o João Borrego e o Manel Primo, que vinha do Casal da Serra, eram dos melhores e estavam lá sempre caídos.

O meu pai é que, mal começava o baile, punha-se logo: «Ó meninos, dois palmos, dois palmos!» e levantava as mãos espalmadas, unidas pelos polegares. O que vale é que havia sempre alguém a acudir por nós: «Ó Ti Jaquim, deixe lá a rapaziada divertir-se, que não se apega mal nenhum! Quando era novo não gostava também de dançar com a Ti Emília?».

Por esta altura, com a barriga cheia e vencidos pelo sono e pelo cansaço das brincadeiras, os mais pequenos deitavam-se pelo chão e dormiam como justos. Contam que um dia, no fim de uma descamisa no Rabaçal, uma filha da Bernardina Pescão Seco, por mais que a chamassem, não dava sinais de vida. Já andava toda a gente à procura, pensando o pior, que naquele tempo ainda apareciam lobos por ali. A mãe, já sem grande esperança de encontrar a filha, deitava as mãos à cabeça: «Ai, minha rica filha! E logo hoje, que lhe pus o meu lenço de merino…». Quando deram com ela, ainda estremunhada debaixo de um molho de folhelhos, foi um alívio. Ainda hoje há quem conte esta história…

Mal o bailarico acabava, já a passar da meia-noite, regressava toda a gente a casa. Os mais pequenos, a lembrarem-se das histórias, agarrados às saias das mães; os mais velhos, com o corpo a pedir cama, mas já a contar os dias para a próxima descamisa, quer fosse a do Ti Matias, a do João Serra, a do António Passaraço, ou a doutro vizinho qualquer. Naquele tempo nenhuma nos escapava.»

ML Ferreira

domingo, 15 de março de 2026

O nosso falar (e viver) – sorte, terça, terceiro

A propósito da última sessão do “Conta-me histórias”, fui rever um pouco da História mais antiga de Portugal. Sobre o reinado dos Visigodos, achei interessante este texto, que pode justificar a origem dos nomes sorte, terça e terceiro, que ainda se vão ouvindo nas conversas entre os mais velhos, referindo uma porção de terra, normalmente pequena, que, nas partilhas, cabe a cada um dos herdeiros; ou o modo de pagamento de quem cultiva terrenos alheios, recebendo como paga a terça parte da colheita: 


                                      (História de Portugal de Fortunato de Almeida)

ML Ferreira

segunda-feira, 9 de março de 2026

O miniautocarro do sr.º Manuel da Silva

Com a devida vénia ao Jaime da Gama, a quem roubei a foto, na sua página do facebook. 

Não é mesmo uma beleza?!


Três aspetos a destacar:
O Citroen;
a calçada antiga; 
o candeiro na fonte, em frente ao brasão;
a indumentária da época.
José Teodoro Prata