Chamamos-lhes quaresmas (as brancas) e por este dias enfeitam os nossos campos. Estas estão nos bordos do caminho, no Ribeiro Dom Bento, para as Quintas e a Senhora da Orada.
Nome científico: Saxifraga granulata.
José Teodoro Prata
Enxidros era a antiga designação do espaço baldio da encosta da Gardunha acima da vila de São Vicente da Beira. A viver aqui ou lá longe, todos continuamos presos a este chão pelo cordão umbilical. Dos Enxidros é um espaço de divulgação das coisas da nossa freguesia. Visitem-nos e enviem a vossa colaboração para teodoroprata@gmail.com
Chamamos-lhes quaresmas (as brancas) e por este dias enfeitam os nossos campos. Estas estão nos bordos do caminho, no Ribeiro Dom Bento, para as Quintas e a Senhora da Orada.
Nome científico: Saxifraga granulata.
José Teodoro Prata
Aqui,
sou a única mulher entre vários homens, quase todos partilhando semelhanças,
físicas e de modos, comuns a irmãos, filhos, tios e primos. Estão de copo na
mão, à roda de uma fogueira, perto da pocilga. «Não tem menos de oito arrobas!»,
gaba-se o dono, que andou a engordá-lo a bolota e bagaço nas últimas semanas. Há
quem se ria do exagero.
Esvaziados
os copos, um dos homens entra dentro da pocilga, ata uma corda numa das patas
do porco e tenta arrastá-lo para fora. Mas ele não quer sair, e grunhe, aflito.
Entram mais dois: um empurra o animal pelo rabo e o outro puxa-o pelas orelhas.
Já cá fora, ajudados por outros homens, levam-no até perto de um banco de
madeira, comprido e largo; juntando forças, estendem-no em cima, deitado de
lado, e tentam amarrar-lhe as patas com cordas, mas o animal continua a grunhir
e a estrebuchar, e quase cai do banco abaixo. Os homens enervam-se e berram,
atribuindo culpas uns aos outros, mas, por fim, conseguem imobilizá-lo. O dono
do porco desculpa-se com outros afazeres e afasta-se.
Uma
mulher aproxima-se com um alguidar de barro e coloca-o por baixo do pescoço do
porco, já bem lavado e seco. O matador espeta a faca de forma certeira e o
sangue escorre, farto, para o alguidar onde a mulher o apula e vai mexendo com
uma colher de pau. Depois de muita luta, o animal desiste, e deita cá para fora
o último sopro de vida. Há quem se ria: «Olha, já deitou a morcela!».
Alguns
homens vão chamuscando o corpo do porco com carqueja a arder; outros, por traz,
raspam-lhe a pele com a navalha que cada um traz no bolso. Demoram-se mais nas
orelhas, até ficarem bem limpas, e nos pés, até saltarem as unhas. O cheiro a pele
e a pelo queimado mistura-se com o cheiro a sangue e a medo. Depois de bem
lavado, carregam o animal para a loja, preso no chambaril pelas patas
traseiras, e penduram-no na sonave.
O
dono do porco reaparece; chegam também algumas mulheres; uma com um tabuleiro
de madeira debaixo do braço. É nele que o matador coloca as tripas retiradas através
de um corte feito desde a cabeça até ao rabo do animal. Corta depois um pedaço
de toucinho da barriga e entrega-o a uma delas: é para o seventre. Um homem
reclama a passarinha e as morejas para o petisco a acompanhar a prova do vinho
da última colheita.
Três
mulheres abalam para a ribeira; uma com o tabuleiro à cabeça; as outras com
baldes cheios de laranjas, sal e vinagre, para lavarem das tripas. As outras
juntam-se na cozinha e, enquanto umas se ocupam do almoço, outras pegam em
facas e tesouras, e todas sabem o que têm a fazer. A forma como aproveitam a
carne ensanguentada, a cortam e temperam com sal, cominhos, salsa e sumo de
laranja, tudo misturado no alguidar onde guardaram o sangue, diz bem da
experiência e das memórias colhidas de mães e avós. Na rua, os homens falam
mais alto, alguns já a justificar o dito «Porco morto, aguardente no corpo;
porco virado, mais um copo emborcado; vira-se outra vez….», que cumpriram à
risca.
À
mesa, entre novos e velhos, sentam-se para cima de vinte pessoas; quase só
homens, que as mulheres, depois da sopa, não param de encher travessas com
arroz de bacalhau, feijão baqueado, batatas cozidas, ervas e seventre, que vão
servindo aos homens. «E o vinho, já se acabou? Tragam mais vinho, não quero copos
vazios em cima da mesa!» reclama o dono da casa.
O
cheiro à morcela da prova, acabada de assar, espevita o resto da gula de todos.
- Parece que este ano ainda estão melhor!» Comenta
alguém.
- Cá na minha casa é tudo bom, que eu trato o
ganal como é dado!
- Estás a dizer que eu não trato bem o meu?
- Então quanto é que o teu pesava? Vá, diz lá!
- Cento e dez…
- Pois fica sabendo que o meu há de pesar mais
uns vinte.
- Como é que sabes? Já o pesaste?
-Não pesei, mas avalia-se pelos presuntos, ou
não sabes que é pelos presuntos que se vê?
- O que eu sei é que todos os anos dizes a
mesma coisa e depois vai-se a ver…
- Quando? Quando é que eu disse que o meu pesava
mais que o teu e era mentira?
A
cunhada interrompe:
- Já chega! Mas será possível que sempre que
vocês os dois se juntam à mesa, há discussão?
- Se sou ofendido, não tenho que me defender?
Que diabo!
- Acabem lá com isso e comam as papas, que
estão de comer e chorar por mais.
E a
conversa prossegue durante o café, amolecida agora por mais um copinho de
aguardente «para ajudar a desmoer»:
-Este até me seguia. Era só dizer: «anda,
anda» e ele vinha atrás de mim. Levava-o para o leirão de baixo para comer a
azeitona caída e no fim era só dizer: «Anda embora», e ele vinha.
O matador
não quis ficar atrás:
- Um cabrito que eu lá tinha também era a
coisa mais esperta que já se viu. A mãe rejeitou-o e tive que o criar a biberão.
O corno andava comigo para todo o lado. Eu vinha para aqui e ele vinha, eu ia
para ali e ele ia. Pelo Natal chamaram-me aí numa casa para ir matar um cabrito.
Fui e quando volto o gajo vem ter comigo, que sempre que chegava, ele vinha ter
comigo. Chego-me à beira dele para lhe fazer uma festa e o gajo cheira-me e
começa recuar, desconfiado. Chamo-o “Anda cá”, e ele foge-me. Fiquei preado!
“Anda cá, seu filho duma cabra, que eu já te enxofro”, corri atrás do gajo e
pumba: acertei-lhe mesmo no meio dos cornos. Nem fui capaz de o comer… Isto
para dizer que os animais são espertos… Mais que algumas pessoas.
Depois,
volta-se para o dono da casa:
- Mas
se te custa tanto matar os bácoros, porque é que os crias? Deixa-te disto.
- Já
estava criado, o que é que querias que lhe fizesse? Fazia como a Ti Porquéria
que teve lá um que até já tinha os dentes revirados?
- Eu
sou franco, também não é trabalho que goste de fazer, mas se não sou eu e mais
um ou dois que ainda por aí há, quem é que mata algum porco que por aí se vai
criando? Dantes havia cá muitos matadores: era o Mudo, o Fernando Latoeiro, o
João da Resgate, o Fecisco Ramalho…; no Casal era mais o Jaquim Pique, mas
havia outros que também se ajeitavam. Nesse tempo, por esta altura, não tinham
mãos a medir. Quase que se governavam só com os presentes que recebiam. Tudo do
bom e do melhor; só de lombo, quem desse menos que uma mão-travessa, estava
chapado…
Já
era noite quando o matador foi desmanchar o porco. Depois, ajudado pelo dono,
meteu os presuntos e outros bocados de carne e toucinho na salgadeira, cada
peça devidamente separada da outra com sal: por cima as que se comiam mais
cedo; por baixo as que ficavam para o tarde.
As
mulheres terão ainda muito que fazer durante alguns dias a cortar e temperar as
carnes e gorduras destinadas aos enchidos: primeiro as morcelas, depois as
chouriças e no fim as farinheiras. As varas do fumeiro vão ficar penduradas sobre
a lareira até tudo estar capaz de ser guardado para ser comido pelo ano fora.
ML
Ferreira
Ontem, o Conta-me histórias foi diferente, mais antropologia,
etnologia e etnografia do que as habituais pequenas histórias passadas com as gentes da nossa
comunidade. Mas a conversa foi muito animada e a maioria dos mais de 30
participantes deram o seu testemunho sobre os temas abordados: as matações e as
descamisas. Ficou o registo áudio, agora a passar a escrito.
A Lurdes Marcelino até nos surpreendeu com duas canções das
descamisas da sua juventude (noutras regiões designadas por desfolhadas). Uma
delas cantada pelo rancho vicentino e a outra imortalizada pelo Zeca Afonso:
Milho Verde.
O grande ausente-presente foi o Dr. Albano Mendes de Matos, do Casal da Serra, a propósito do seu estudo A Matação na Gardunha.
No final, um magnífico lanche, graças à generosidade da
Libânia e da Lurdes Marcelino. Obrigado também à direção do Centro Cultural e
Recreativo do Casal da Fraga.
José Teodoro Prata
Já nasceram, no Dia da Mulher, como previsto. A Natureza é um relógio suíço!
De 5 ovos, nasceram 2 + 2 ovos não galados (há um termo para isto, talvez golos, mas não tenho a certeza) + 1 criado, mas que não rompeu, embora a casca fosse frágil.
O amarelo é uma fêmea e o castanho um macho. Sabe-se pelas penas das asas, nos primeiros 3 dias de vida: as fêmeas têm as penas das extremidades das asas todas ao mesmo nível e nos machos estão em duas filas intercaladas (comprida, curta, comprida, curta...)
Tenho uma galinha amarela, que na realidade é castanha alaranjada, e três castanhas. O macho é de uma galinha castanha e a fêmea da chamada amarela. Agora percebo porque se chamam amarelas a galinhas que na realidade são quase castanhas: na infância são amarelas.
Daqui a uns meses há mais! Isto é como aprender a cozer pão: para a próxima, correrá melhor!
José Teodoro Prata
Ao cortar umas silvas, interrompi-lhe a hibernação. Mas depressa arranjou novo esconderijo.
Soneto para Maria Teresa Horta
de Hélia Correia,
in Jornal da Letras, 19 de
fevereiro de 2025
Quando nasceste, a mão que
abençoou
O teu destino amável de
donzela
Deixou, sem querer, aberta
uma janela
Por onde o grito das
mulheres entrou.
Quando olho o teu retrato e
vejo aquela
Menina cintilante, eu por
mim dou
A perguntar que força te
arrancou
A tão suave instante
aguarela.
E nos teus olhos claros, de
princesa,
Na tua boca, ao sim
predestinada,
Um grande texto orgânico
nasceu.
Poema que já estava, minha
Teresa,
À tua espera desde a
madrugada,
Sabendo ser unicamente teu.
José Teodoro Prata