terça-feira, 6 de junho de 2017

Histórias do meu pai

Quando o meu pai era pequeno o meu avô trabalhava na casa de uma das famílias mais ricas cá da terra e por isso era onde a professora ficava hospedada. Nessa altura o meu pai ainda não tinha idade para entrar para a escola, mas a mãe foi pedir à filha do patrão que falasse à professora a ver se o deixava entrar, só para o tirar da rua. A professora disse que sim, que podia ir, mas que levasse um banquinho de casa, que não tinha onde o sentar. E assim foi. Arranjaram um banco e o menino passava o dia sentado ao lado da secretária da professora, com a pedra no colo, e lá ia fazendo uns riscos com o ponteiro, a imitar as letras e os números que a professora fazia no quadro para os outros copiarem.
Mas aquilo era um inferno para o cachopinho, avesado a andar a correr pelas ruas ou a apanhar peixes na ribeira. Sempre que ouvia os chocalhos dos rebanhos a passar no caminho, ao pé da escola, e os pastores atrás, a assobiar, ficava numa tristeza tão grande que só visto. Mas ficava calado e assobiava baixinho, só para ele, a sonhar com o dia em que também pudesse ter um rebanho de cabras e andar por lá o dia todo com elas. Uma vez chegou a casa a chorar e voltou-se para a mãe:
            - Também não sei porque é que eu nasci tão desgraçadinho e os outros cachopos são tão felizes!
            - Porque é que dizes uma coisa dessas, filho?
            - Então não vejo os outros atrás das cabras, e eu ali o dia todo, assentado num banco a olhar p’ó cu da professora?

Mal fez o exame da 4ª classe começou logo a trabalhar como os da idade dele: à frente das vacas, atrás das cabras, a colher azeitona ou aos molhos de mato e de lenha. Era o que havia para fazer, e às vezes nem havia domingos nem dias santos. Havia alturas que já andava tão farto daquela vida que até sentia saudades dos tempos que passou sentado no banquinho ao lado da professora. Um dia, ainda bem cedo, chegou a casa todo derreado debaixo de um molho de mato que tinha ido roçar lá para uma lonjura que só visto. Antes de o traçar e fazer a cama ao porco foi beber o café, que ainda estava em jejum. Nisto, a mãe ouve-o a lamuriar-se:
            - Sou um desgraçadinho! Os meus primos ceguinhos é que são felizes, que nem têm que ir ao mato nem à lenha. Quem me dera ser com’ a eles!
A mãe nem queria crer no que estava a ouvir:
- Benza-te Deus, filho! Tu nem digas ma coisa dessas que o Nosso Senhor ainda te castiga!
- Digo pois, que s’ eu fosse ceguinho com’ a eles ainda estava na cama a estas horas…

Sempre gostou muito de cagarrapos. O dia em que enchiam as farinheiras, por alturas da matação, era uma festa. À ceia eram sempre dois ou três, ainda quentinhos, com um naco de pão por cima da sopa.
Uma vez, quando se levantou da cama, no dia a seguir, foi a correr chamar a mãe:
 - Eh mãe, venha cá aqui à cozinha, que está uma farinheira caída no meio do chão!
 - Deixa lá! É da maneira que já temos conduto p’rá noite!
O pior é que, durante quase uma semana, todas a manhãs aparecia uma farinheira caída por baixo do fumeiro.
- Rais parta o diabo, qu’inté parece que m’ imbruxaram as farinheiras! - Lamentava-se já a mãe.
- Anda pr’aí mistério; ai anda, anda… - Respondia o filho, ansioso que chegasse a ceia.
Mas um dia a mãe, estranhando que se andasse a levantar da cama primeiro que todos, foi espreitá-lo e descobriu que era ele que andava a afrouxar os nós das baraças das farinheiras.  


Um ano, já era pastor sozinho, começaram a usar-se as camisas de meia manga. Havia cá na terra uns rapazes do ano dele que tinham uma tia em Lisboa e que, pela festa do Santiago, trouxe uma dessas camisas da moda para cada um deles.
            No dia da festa, quando viu os amigos com as camisas novas, não tirava os olhos delas, de tão lindas que as achava. À noite moeu o juízo à mãe:  
            - Sou um desgraçadinho que nem tenho uma camisa de manga curta, com’os outros cachopos! Corte-me lá as mangas a esta aqui.
            - Tu vê se tomas tino e não m’atentes o juízo! E depois no inverno, com’ é que fazes? Apegas outra vez as mangas à camisa?
            Calou-se. Quando foi ao outro dia, que saiu com as cabras, levou um podão bem afiado e, mal chegou lá a um certo sítio, despiu a camisa, pôs as mangas em cima dum cepo e cortou-as pelo meio. Passou o dia numa ânsia, a ver quando é que o Sol descia para arrecadar o gado na corte. Mal entrou em casa e a mãe encarou com ele, ia caindo o Carmo e a Trindade; mas ele, bem ralado! Engoliu a ceia à pressa e saiu porta fora com as mãos nos bolsos, a assobiar, todo inchado, para que todos lhe pudessem ver bem a camisa de manga curta.

Era assim, o meu pai! E o que a gente se divertia a ouvi-lo contar estas histórias à roda do lume…

M. L. Ferreira

6 comentários:

Anônimo disse...

Uma bela história de um pai. Um pai qualquer. Um homem qualquer! Um homem de um Povo! Todos, em algum tempo, podiam ter sido como ele: ter sonhos! Não sonhos de reis ou de príncipes, como nas histórias de encantar! Mas ter pequenos sonhos! Como, ir à escola, ser pastor ou comer uma talhada de farinheira à ceia. E ter uma camisa de meia manga! Ter uma vida entre esse Povo! E, depois, por causa dessa vida, saturar-se e aborrecer-se dos seus sonhos!
Por tudo isto, veio-me à lembrança um poema do Pedro Homem de Melo, "Povo que Lavas no Rio", transformado em hino pela nossa Amália.
O pai desta história estava, com certeza, também, à mesa redonda e bebia pela malga que passava em roda, por todos (daí, o beijo de mão em mão, como diz o poema). Esse homem, pertence, sem dúvida, a esse Povo e, por isso, também aí é cantado.
Abraços.
ZB

José Teodoro Prata disse...

O Zé Barroso estava inspirado!
Os mais novos não pensem que as camisas de manga curta são assim tão antigas!
No início dos anos 80, trabalhava eu na Fundada, Vila de Rei. Num verão, fartei-me de procurar em Castelo Branco camisas de manga curta, mas não havia, porque ainda ninguém as procurava. Jurei não voltar a passar outro verão de calor todo vestido, como os nossos antepassados mouros (o que tapa o frio tapa o calor) e na primavera seguinte mandei-as fazer a uma costureira, lá na Fundada. Depois começaram a vender-se em Castelo Branco.
Esta história é muito saborosa, não só pelo que conta, mas também porque nos permite perceber como é que estas histórias eram recontadas no seio familiar. Há nas quatro um padrão narrativo comum, muito interessante (para além da habilidade da autora).

Anônimo disse...

Deliciosa a leitura das "histórias mo meu pai".
esmiuçado que está o texto em termos filosóficos e sociológicos só resta um reparo: Isso é dum tempo remoto (parece não é?) em que as pessoas tinham ouvintes e falavam com quem estava por perto.
Agora o que é "cool" é ignorar os que estão ao lado e freneticamente enviar mensagens a quem está longe e mal se conhece.
Tudo isto me parece um caminho para a solidão interior, mas as pessoas vão dar por ela e voltar a gostar saborear a proximidade física, que é essa que nos aquece o interior.
Um dia destes passei à frente dum colégio à hora de almoço. Imensos jovens de 14 aos 18, eles e elas sentados nas soleiras das portas de telemóvel em punho, numa dança frenética de polegares e numa comunhão perfeita com a máquina.
No tal tempo remoto estariam eles a armar-se e a pavonear-se para elas com gracinhas e fantasias só para conquistar um olhar de admiração, ou uma amiga especial.
Mas os tempos estão a mudar...sempre.
De maneiras que é assim.
FB

Anônimo disse...

Penso que é importante dizer que esta história resultou da conversa que tive com uma amiga da Partida. E gostava que vissem a alegria com que ela me contava estas memórias que, ao fim de muitos anos, ainda guarda do tempo em que as ouviu.
Acho que, apesar de tudo, tivemos muita sorte em ter nascido num tempo em que o meio familiar nos proporcionava quase tudo o que precisávamos para crescer de forma saudável, principalmente do ponto de vista emocional e dos afetos.
A propósito disto tudo e do comentário do Francisco, estou a lembrar-me de um vídeo que andou por aí a circular, e muitos conhecerão, em que alguém perguntava a várias crianças o que é que gostariam de ser quando fossem grandes. Houve uma criança que respondeu que gostava de ser smart-fone porque que era a coisa a que os pais davam mais atenção quando estavam em casa…

M. L. Ferreira

José Teodoro Prata disse...

Completando o ideia do meu primeiro comentário:
Era assim que o nosso povo se divertia, no passado. Contavam-se, em família nuclear ou alargada, as peripécias mais engraçadas que haviam acontecido aos familiares mais velhos. E de tanto passarem de boca em boca, as histórias iam-se moldando, realçando os aspetos que as caraterizavam: mais comicidade, mais apimentadas...

José Teodoro Prata disse...

É inquietante a forma como estão a evoluir as crianças e os adolescentes.
Já havia o problema das crianças passarem demasiado tempo nas tarefas escolares, sem tempo diário para nada, isto é, para brincarem. Nos últimos anos, Nuno Crato alterou os programas de Matemática dando-lhes um tal grau de abstração, logo no 1.º ano, que deixa qualquer um de boca aberta. Anda tudo de cabeça perdida, só falta irem para as explicações, logo à saída do pré-escolar. Mas falta pouco...
Agora é o problema dos telemóveis, nos intervalos escolares. Os adolescentes não se divertem, não convivem, ficam em pequenos grupos, normalmente unissexo, a clicar no telemóvel. À saída da sala de aula, a preocupação é encontrar uma parede onde se encostarem para passarem o intervalo. Depois, a necessária descontração terá de fazer-se dentro da sala. Bem os incentivo a irem namorar, mas sorriem, sem sequer levantarem a cabeça...
Não faço juízos de valor, mas há aqui uma evolução para algo diferente, desconhecido.
No Reino Unido, já há uma rede de colégios particulares que só aceita crianças que em casa não tenham qualquer contacto com computadores e telemóveis (e na escola também não).