domingo, 1 de dezembro de 2024

Os Sanvicentinos na Grande Guerra

 Mário de Souza 

Mário de Souza da Cunha Pignatelli foi batizado na freguesia de Salvador, Penamacor, no dia 26 de novembro de 1886. Era filho de Francisca de Souza, nascida nos Escalos de Cima, e de José da Cunha Freire Pignatelli.

Com apenas dez anos de idade, após ter concluído a instrução primária, a mãe enviou-o para Lisboa, a fim de prosseguir os estudos na Real Casa Pia de Xabregas. Aos 18 anos, começou a trabalhar na Companhia dos Correios e Telégrafos, vindo a alcançar a posição de Director Distrital, com assento na Guarda.

Assentou praça em Penamacor, no dia 3 de junho de 1906, e, apurado para servir na Arma de Engenharia, alistou-se no Regimento de Infantaria de Reserva n.º 21.

Licenciado, foi domiciliar-se na freguesia de Santos o Velho, em Lisboa. Apresentou-se novamente para serviço ordinário, por um período de 30 dias, nos termos do nº 2 do Art.º 31 do regulamento para a organização das reservas do exército, em 1 de agosto de 1907.

Passou ao DRR n.º 21, em 31 de outubro de 1907, e mudou a residência para Castelo Branco. Em 16 de janeiro de 1911, passou ao DRR n.º 2, indo domiciliar-se na freguesia de Belém, Lisboa.

Em 1917, foi mobilizado para participar na Grande Guerra, tendo seguido de comboio para França, no dia 9 de junho de 1917, integrado no Serviço Postal nº 8 do CEP, Serviço de 2.ª Linha, com o posto de 1.º Aspirante de Correios, com a graduação de Alferes.


No seu boletim individual do CEP consta apenas o seguinte:

a)     Transferido para o S.P.C. 4 (Serviço Postal em Campanha nº 4), a 10 de janeiro de 1918;

b)     Licença de campanha por 45 dias, em 14 de janeiro;

c)     Colocado como chefe do S.P.C. 4, em 4 de fevereiro;

d)     Colocado com adjunto do S.P.C. 8, por ordem de 9 de agosto;

e)     Abatido ao efetivo, em 23 de março de 1919, regressou a Portugal a 31 do mesmo mês. Desembarcou em Lisboa, a 3 de abril.  

Condecorações: Medalha comemorativa da Campanha de França.

Por ter completado o tempo de serviço obrigatório, foi-lhe dada baixa a 3 de julho de 1921, ficando obrigado, em tempo de guerra, a concorrer para a defesa local até aos 45 anos de idade, mas sem encargo algum em tempo de paz. Passou à reserva para todo o serviço militar, em 26 de novembro de 1931, por ter completado 45 anos de idade.


Família:

Antes de ter sido mobilizado para participar na Grande Guerra, Mário de Souza já era casado com Judite Santareno e residiam em Évora, localidade onde lhes nasceram os seus 2 filhos:

1.   José Santareno de Souza da Cunha Pignatelli (condecorado com a Laureada Cruz de São Fernando pela sua participação na Missão Militar Portuguesa de Observação durante a guerra civil de Espanha) que casou com Maria Joana Casanova Dias Ferreira. Tiveram dois filhos, ambos com descendência;

2. Mário José Santareno de Souza da Cunha Pignatelli que casou com Maria Júlia Mesquita dos Santos. Tiveram 6 filhos, todos também com descendência.

 


Após ter-se retirado da vida profissional (nesta altura estaria colocado como Diretor de Correios e Telégrafos na cidade da Guarda), domiciliou-se em São Vicente da Beira onde passou a gerir as suas propriedades. Foi também Provedor da Santa Casa da Misericórdia, mas por um período muito curto, uma vez que faleceu passado pouco tempo de ter tomado posse do cargo.

Mário de Souza da Cunha Pignatelli morreu em São Vicente da Beira, no dia quatro de Abril de 1947. Tinha 62 anos.

 

(Pesquisa feita com a colaboração da bisneta de Mário de Souza, Marina da Cunha Pignatelli)


Maria Libânia Ferreira

Do livro Os Combatentes de São Vicente da Beira na Grande Guerra

terça-feira, 26 de novembro de 2024

O nosso falar: Agarrado/a e Sede d´água

 

Uma das irmãs da minha mãe, ainda viva, sofre de demência já há alguns anos. Como está no Centro de Dia do Sobral, mal a vejo durante a semana, mas aos domingos quase sempre vou estar um bocadinho com ela.

Nessas visitas pouco fala, mas ri-se muito. Quando tento puxar-lhe pela memória, é capaz de me cantar cantigas ou dizer orações que cantava ou rezava antigamente, mas se lhe pergunto, por exemplo, o que é que foi o almoço ou se algum dos filhos lhe telefonou, nunca me sabe responder. Coisas próprias da doença…

Há dias perguntei-lhe se se lembrava da Tia Antónia (a governanta duma casa de gente rica onde esteve a servir): «Então não havia de me lembrar? Era uma agarrada pior que o São Pedro! Com tanta fartura que havia naquela casa, e não dava uma sede d’água a um pobre!»

Quando éramos crianças, lembro-me de chamarmos agarrado ou agarrada a alguém que tivesse alguma coisa (um brinquedo, um lápis ou uma borracha…) e não partilhasse connosco ou nos emprestasse, se lho pedíssemos.

A referência ao São Pedro, só se for pelas chaves que, dizem, a Tia Antónia trazia sempre à cintura para não lhe irem à despensa ou à adega às escondidas.

Para sede d’ água, não encontrei definição, mas, pelo contexto, deve significar uma pequena esmola, ou mesmo esmola nenhuma. Se alguém souber…

ML Ferreira

sábado, 23 de novembro de 2024

O barulho da Fonte da Fraga

 

Os meus amigos/vizinhos do Ribeiro Dom Bento perguntaram-me o que causa o barulho que se ouve sobretudo de noite.
Perguntei a quem ouve bem e vive em São Vicente.
O barulho vem das máquinas da fábrica da água Fonte da Fraga e aumentou desde que aumentou a produção com os novos donos. 
Há outras pessoas a queixarem-se.

Defendo o apoio da nossa comunidade ao projeto dos novos donos da empresa, que preveem mais emprego. Tal como defendo o nosso apoio à conversão das instalações, que ficaram desocupadas com o fim dos 2.º e 3.º ciclos na escola, numa unidade de cuidados continuados. Reivindicar serviços sem ter população é conversa da treta.
Mas temos de exigir boas condições, nomeadamente não permitir que o sossego noturno seja perturbado.

José Teodoro Prata

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Dia dos sinos

 

Todos os anos, por esta altura, sinto um grande orgulho e muita inquietação. 

Do orgulho tenho escrito aqui o gosto que é ver o nosso Pedro Inácio Gama a participar neste evento, sendo um dos dois únicos tocadores de sinos que restam nas povoações do concelho.

A inquietação tenho-a calado, mas este ano não me fico. Há quantos anos não se ouve o toque dos sinos em São Vicente? Não é um património a valorizar, um património que nos identifica como comunidade? Ou é porque não sabemos valorizar e acarinhar os nossos?

Em verdade vos digo, algo está muito errado em nós como comunidade, se temos um dos raros tocadores de sinos e estes não repicam durante a procissão do Santo Cristo e noutros momentos marcantes da nossa vida coletiva.

José Teodoro Prata

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Umas Festas de Verão diferentes


Estávamos no mês de setembro, do ano de 1973. Decorriam em S. Vicente da Beira, na terceira semana do mês, as Festas de Verão em honra do Santíssimo Sacramento, do Senhor Santo Cristo e de Nossa Senhora do Carmo.

As festas eram organizadas por uma comissão que todos os anos era nomeada, por ruas. Nessa época, em São Vicente, não havia casas desabitadas, havia mais de dois mil habitantes. Naquele ano, a nossa rua, ou seja, a Rua das Laranjeiras, também foi a incluída para a comissão e o meu Pai foi um deles.

Estes festejos eram vividos e sentidos pela população com o maior respeito. Era o momento em que as famílias se juntavam, os que se encontravam ausentes regressavam, juntando-se aos seus, num franco e saudável convívio. Quase todas as famílias tinham o seu borreguinho que criavam ao longo do ano. Mesmo aqueles que não tinham terras, levavam-nos para a ribeira, onde comiam aquela erva que ali crescia tenrinha. Nestes dias de festa sacrificavam o borrego, servido como um grande pitéu nas nossas mesas.

Eu cumpria o serviço militar no quartel do RTM do Porto e vim passar o meu fim de semana. Cheguei sexta-feira à noite, após ter apanhado o comboio na estação de Campanhã, em direção ao Entroncamento, e a seguir, depois de algumas horas à espera, apanhar o comboio que partira de Lisboa em direção à Guarda. Saí na estação de Alcains e apanhei um táxi até a São Vicente.

Reinava na nossa casa a azáfama dos preparativos para estes três dias festivos. O meu Pai, juntamente com outros vicentinos da comissão de festas, não parava em casa na preparação dos festejos. A minha Mãe, além de estar ocupada com todos estes preparativos, na parte da cozinha, também preparava os doces tradicionais que se encontravam na nossa mesa, como o pão de ló, os biscoitos, as cavacas, os esquecidos, os borrachos, etc.

Eu, devido à minha condição de militar, vinha somente passar o fim de semana normal e na segunda-feira, pelas oito horas, devia dar entrada no quartel. Assim, tinha de sair domingo à tarde, apanhar o comboio em Alcains e seguir viagem até ao Porto. Confesso que me estava a custar partir, mas o meu Pai teve uma ideia brilhante e disse-me: «- Estou a pensar e vou escrever uma carta para o teu comandante, que lhe entregarás quando chegares.» Se bem o pensou, melhor o fez e só parti terça-feira de manhã para o Porto.

A segunda-feira, em honra do Senhor Santo Cristo, era o dia mais importante para nós Vicentinos, o dia em que vestíamos uma roupa nova. Passei a festa alegre e satisfeito, na companhia da família, namorada e amigos e só parti terça-feira de manhã.

Quando entrei no quartel, os colegas disseram-me que eu já estava dado como desertor, já não escapava da TORRE ALTA, que era a prisão. Passei a noite um pouco apreensivo. No dia a seguir, levantei-me ao toque da alvorada, fiz a minha higiene pessoal e às oito horas fomos para a parada fazer a primeira formatura; de seguida fomos tomar o café; às nove horas, dirigi-me ao gabinete do comando e pedi para falar com o comandante; bati à porta e do outro lado ouvi uma voz a dizer que podia entrar; abri a porta e fiquei de frente com o comandante; fiz a continência e identifiquei-me; do outro lado, estava um senhor não muito alto, de bigode, com um aspeto de respeito próprio do comandante da companhia; era o CAPITÃO GUIRA.

Ele pediu-me que apresentasse uma justificação em relação à minha ausência; eu peguei na carta que levava comigo e entreguei-lha; abriu a carta e começou a lê-la; olhou para mim com alguma emoção e, após ler a carta escrita pelo meu Pai, disse-me o seguinte: «- Vou abrir uma exceção e dar-lhe duas hipóteses de escolha: dou-lhe voz de prisão e vai uns dias para a Torre Alta ou vai oito dias para o refeitório fazer serviço de faxina.»

Eu nem pensei duas vezes e respondi-lhe que queria ir para o refeitório; ele aceitou a minha escolha e mandou-me embora; quando cheguei à parada, estavam os colegas à minha espera para saberem a resposta; eu pu-los ao corrente da decisão do comandante e eles não acreditavam, porque este Capitão por tudo e por nada mandava o pessoal para a Torre Alta, que estava quase sempre lotada.

E assim se passou este episódio comigo, nas Festas de Verão do ano de 1973.

João Maria dos Santos

História contada na 5.ª sessão do projeto Conta-me histórias

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Os Sanvicentinos na Grande Guerra

 Manuel Vaz

Manuel Vaz nasceu em São Vicente da Beira, no dia 30 de abril de 1892. Era filho de Joaquim Vaz, jornaleiro e carvoeiro, e de Ana Maria, natural da Paradanta, residentes na rua Nicolau Veloso.

Assentou praça no dia 3 de julho de 1912 e foi incorporado a 15 de janeiro de 1913, como soldado condutor. Ficou pronto da recruta em 31 de maio de 1913 e foi licenciado em 1 de junho, indo domiciliar-se em São Pedro de Torres Vedras.

Foi novamente mobilizado para fazer parte do CEP e apresentou-se no dia 5 de setembro de 1916. Embarcou para França, no dia 8 de agosto, integrando a 2.ª Bateria do Regimento de Artilharia n.º 1, como soldado condutor. Tinha o número 253 e a placa de identificação n.º 26702- série A.

O facto de Manuel Vaz ter partido para França integrado o Regimento de Artilharia n.º 1 poderá dever-se ao facto de o pai ter falecido muito cedo, deixando cinco filhos ainda menores. A mãe terá partido para Lisboa com as crianças e foi lá que se criaram e viveram, pois não há em São Vicente qualquer registo de casamento ou óbito de nenhum deles.

O boletim individual de Manuel Vaz refere apenas o seguinte:

a)   Tomou parte na batalha de La Lyz de 9 de março de 1918;

b)   Esteve de licença de campanha por 10 dias, com princípio em 3 de fevereiro de 1919;

c)   Regressou a Portugal a 4 de maio de 1919.

Por fazer parte do Regimento de Artilharia n.º 1, Manuel Vaz foi um dos dois sanvicentinos a tomar parte na batalha de La Lyz.

Condecorações:

·        Medalha de cobre comemorativa da expedição a França, com a legenda: França 1917-1918;

·        Medalha da Vitória.




Após o regresso a Portugal, domiciliou-se em Lisboa, na rua das Escolas Gerais, n.º 15, mas terá mudado a residência pouco tempo depois.

Sem domicílio conhecido desde 2 de outubro de 1921, passou ao 1.º Grupo de Baterias de Reserva, em 31 de dezembro de 1922, e à Companhia de Trem Hipomóvel, a 9 de outubro de 19130. Passou à reserva territorial em 31 de outubro de 1933.

Não foi possível encontrar documentos ou familiares que pudessem informar sobre a vida de Manuel Vaz após o regresso de França. No seu registo de batismo também não consta qualquer averbamento que dê conta de um possível casamento ou a data e local do seu falecimento.

Maria Libânia Ferreira

Do livro Os Combatentes de São Vicente da Beira na Grande Guerra


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Memórias da Praça

 

A minha Praça não é a dos tempos idos da História, atravessada por presidentes, juízes, tabeliães, condes e viscondes; nem a dos vigários e outros vultos negros a caminho da igreja; ou a da gente presa na enxovia, açoitada no pelourinho ou levada para a forca; nem sequer a dos gabões que invadiram a câmara, queimaram os papéis e acabaram com o concelho.

A minha Praça é a das olaias floridas, mal chegava a primavera; a dos bancos todos com gente; a dos sinos a tocar as Ave-marias, para a missa, por ser festa, haver fogo ou ir alguém a enterrar.

É a Praça das tendas, nos dias de feira, onde os olhos nos ficavam presos a tanta coisa linda a que mal podíamos chegar. 

É a Praça das tabernas a toda a roda, que aos domingos, depois da missa, se enchiam de homens na conversa e a beber em sociedade; que quando o vinho falava mais alto e qualquer questão de lana-caprina dava azo a zaragatas, era ver as mulheres aflitas e as crianças curiosas, todas a correr, não fosse algum parente chegado andar metido na bulha.

É a Praça das procissões, dos foguetes, da banda a tocar no coreto, das cantigas de Natal, à roda da fogueira, à saída da Missa do Galo.

É a Praça onde ríamos à gargalhada, sentados no chão ou em bancos levados de casa, quando vinham as comédias; ou quando, nas noites de circo, de coração aos pulos, até fechávamos os olhos quando os acrobatas davam voltas no trapézio ou tentavam equilibrar-se em cima do arame.

É a Praça dos ceguinhos que apareciam aos domingos e nos dias de feira, e cantavam histórias fabulosas de amor e tragédia que alimentavam um imaginário sem limites.

É a Praça onde, nas vésperas da Senhora da Orada e das Festas de Verão, chegavam as excursões vindas de Lisboa: uma camioneta grande, cheia de gente, e era uma alegria se vinha algum parente próximo, que, quase de certeza, havia de nos trazer uma prenda.  

É a Praça da escola: horas sem fim a dizer a tabuada, as serras, os rios e caminhos-de-ferro, na ânsia do recreio. E o tempo era pouco para as rodas, o paspelho, a linda falua, os jogos da pela, da corda, do anel, do espeta ou das conchinhas; às vezes só a partilha de segredos íntimos, inocentes, com a melhor amiga.

É a Praça onde ia à fonte e ficava horas esquecida na brincadeira ou na conversa, enquanto esperava a vez para encher o cântaro; e a minha mãe à espera da água, às vezes já com o chinelo à mão…

É a Praça onde, aos domingos à tarde, paravam carros com senhoras bem vestidas ao lado de homens engravatado, que vinham à procura de raparigas sérias e despachadas para criadas de servir; uma vez quiseram levar-me e tive de fugir para casa. Passei o resto da tarde encolhida debaixo da cama, com medo que a minha mãe desse comigo e me obrigasse a ir para a Covilhã.

É a Praça onde esperava sempre, no dia certo, a carrinha da Gulbenkian; às vezes tinha que me esconder para ler os livros que levava para casa; talvez por isso me davam tanto prazer.

É a Praça dos primeiros bailes de domingo, no balanço das músicas da moda, tocadas num gira-discos manhoso. Foi num desses bailes que dancei o primeiro slow e quis o primeiro beijo.

Passaram muitos anos, e o mundo deu tantas voltas, que a minha Praça já é quase só memórias…

ML Ferreira