Já houve um tempo em que os do Sobral não
podiam ver os de S. Vicente, e os de S. Vicente, a mesma coisa quanto aos do
Sobral. Ai daqueles que se aventurassem nas festas uns dos outros, e nos bailes
nem os mais valentes se atreviam a tirar uma rapariga para dançar. Eram logo encorridos
à pedrada ou à paulada. E tudo por causa da Santa Bárbara que antigamente tinha
a capela na estrema entre os dois povos e os de lá achavam que era deles; os de
cá, diziam que era nossa.
Um dia os nossos puseram-se a caminho e
roubaram a Santa. Depois pegaram num carro de bois e foram buscar as pedras
para a capela. Pediram um bocado de terra à Dona Celestina e fizeram-na aqui, no
Casal da Fraga.
Enquanto duraram as obras, a Santa andou
fugida de casa em casa, escondida no forro ou na loja para não ser achada, que os
do Sobral não se conformavam com a perda da Santa.
É pequenina, a capela, mas motivo de grande
orgulho e devoção. Tem a data de 23 – 03 - 23 e a partir daí todos os anos lhe
fazem cá a festa, na terceira semana a seguir à Páscoa. É este fim de semana.
O programa promete, assim a Santa ajude com a
melhoria do tempo. Diz que para contentar os dois povos, no ano em que chove na
festa da Senhora da Saúde faz sol na de Santa Bárbara. Este ano choveu no Sobral,
oxalá se cumpra a tradição e faça sol por cá…
Mas não é só entre o Sobral e S. Vicente que
aconteceram estas rivalidades na disputa de santos e santas. Diz que entre a
Póvoa e Tinalhas houve guerras ainda piores por causa da Senhora da Encarnação
cuja capela também foi construída nos limites entre as duas localidades. Todos
os anos, por alturas da romaria, tinham que pedir o reforço da guarda, e mesmo
assim havia sempre muitas cabeças partidas. Só quando os de Tinalhas resolveram
fazer uma capela à Rainha Santa Isabel, no outro extremo da terra, os ânimos
acalmaram. Mesmo assim, na veneração à Santa ainda lembram rivalidades antigas:
Rainha Santa Isabel,
Tendes uma capela nova,
Foi o povo de Tinalhas
P’ra fazer ver aos da Póva.
M. L. Ferreira